Prólogo : Aconteceu há muito tempo
A ‘Mahanon’, uma grande nave colonizadora, enfrentou um súbito problema em seus sistemas. De repente, depois de uma luz, todos os monitores da cabina de comando registraram perigo. A tripulação alertou que os controles estavam um a um sendo dominados por algo. O capitão imediatamente ordenou que o comando manual fosse estabelecido, mas o desligamento do sistema automático falhou. Contatos com a sala de máquinas também falharam. Ao perceber uma espécie de programa-vírus dominando todo o maquinário, o capitão ordenou a evacuação imediata dos passageiros e da tripulação, incluindo o pessoal da cabina de comando. Ficando para trás ele viu, horrorizado, que o invasor desconhecido dominara os sistemas de defesa da nave e estava usando os canhões da “Mahanon” contra as naves de fuga que saíam, impedindo que alguém escapasse vivo.Os enormes cabos de energia da nave romperam o casco e começaram a se agitar no espaço como se fossem os tentáculos de algum monstro, e uma mensagem repetida tomou todos os monitores da cabina em letras vermelhas.
“Vocês se tornarão deuses.”
O painel que o capitão ativou em seguida era independente do sistema contaminado. Ele digitou sua senha, ligou o sistema de autodestruição e então deu uma olhada no relicário que trazia consigo, com uma foto com a esposa e a filha que não tornaria a ver. Segundos depois, uma série de explosões programadas fez a ‘Mahanon’ desaparecer num clarão, próxima à órbita de um planeta.
Próxima aos destroços do corpo principal da nave, “ela” se levantou. Os longos cabelos púrpura ondulavam com o vento e seus olhos refletiam a escuridão da noite e as estrelas cadentes que eram as demais partes da nave caindo. Foi neste dia que “Deus” e a “humanidade” chegaram a Ignas.
Capítulo 01: A Vila de Lahan
O Continente de Ignas, no hemisfério norte do nosso mundo. Neste, o maior continente, uma guerra tem seguido entre dois países por centenas de anos. Ao norte do continente jaz o Império de Kislev; ao sul, está o Reino do Deserto de Aveh.
A guerra durou por tanto tempo que as pessoas esqueceram da causa, conhecendo apenas o círculo sem fim de hostilidade e tragédias. A obsessão crônica da guerra em breve encontraria uma mudança devastadora. Isso se deveu ao “Ethos”, uma instituição que preserva a cultura do nosso mundo, reparando ferramentas e armas escavadas das ruínas de uma civilização antiga. Ambos os países escavavam estas ruínas e pediam ao “Ethos” que consertasse as descobertas, a fim de aumentar seu poder militar.
As variadas armas escavadas das ruínas alteraram grandemente o desempenho do esforço de guerra. O resultado das batalhas entre os dois países não era mais determinado pelo combate homem a homem, mas por ‘Gears’ – máquinas de combate humanóides gigantes – que eram obtidos do interior mais profundo das ruínas. Eventualmente, depois de mudanças constantes no estado de guerra, Kislev conseguiu ficar por cima. O principal fator por trás disso estava na enorme diferença entre a quantidade de recursos enterrados no interior de suas ruínas. Mas, de repente, uma força militar misteriosa apareceu no continente de Ignas. Chamados de ‘Gebler’, esta força decidiu fazer contato com Aveh. Com a ajuda desta força militar Gebler, Aveh conseguiu recuperar-se de sua desesperada minoria para voltar até a fazer par com Kislev. Então, tomando vantagem de sua recém-conquistada aliança, Aveh começou a capturar um território após o outro de Kislev, sem mostrar qualquer indicação de diminuir sua campanha de invasão.
A história começa na vila remota de Lahan, nos limites de Aveh, próxima à fronteira de Kislev…
A vila está
em chamas. Pessoas correm por toda a volta enquanto a escuridão da noite é rompida pelo tom vermelho-brilhante das labaredas em seus lares. Um grupo de Gears militares enfrenta um Gear solitário, pilotado pelo jovem Fei Fong Wong, já cansado pelo esforço.
_ Huff… Puff… Malditos!
Apesar de nunca ter pilotado um Gear na vida, Fei conseguiu derrubar alguns dos soldados sem maiores problemas. Mas os Gears inimigos tornaram a se pôr de pé.
_ O que, raios, é você? – ele pergunta – Não importa como eu o derrube, ainda consegue ficar de pé?
A poucos metros da batalha o Dr. Citan Uzuki, amigo próximo de Fei e do povo da vila tenta se fazer ouvir:
_ Fei, pare! Você não deve lutar aqui!
Uma rajada de metralhadora do Gear inimigo e Fei procurou se desviar, sendo atingido por pouco pelo mesmo que acabara de derrubar. Tornando à carga, o Gear de Fei atinge mais uma vez o outro e torna a derruba-lo.
_ Maldição… Por quê? Por quê tiveram de vir aqui? Pra quê fazer isso?
A única resposta é o som das chamas que continuam consumindo a vila, alheias à luta.
Mais duas pinceladas e parecia pronto. Com um olhar crítico, Fei se afastou um pouco da tela e achou que bastava por hora, resolvido a tirar uma folga. Não tinha idéia de onde viera a inspiração que o levara a pintar aquele quadro, mas quando dera por si, já estava bem adiantado no trabalho. Geralmente, só pintava os arredores de Lahan, onde vivia. Era um rapaz alto, de longos cabelos castanhos presos e também era um mistério. Três anos antes, ele aparecera em Lahan todo sujo de sangue e ensopado da tempestade. Muitos dos aldeões não acharam que suportaria, mas o líder da vila o acolhera e a constituição firme do rapaz impediu o pior. No entanto, ele não se lembrava de coisa alguma anterior a isso, sabendo apenas que fora entregue ao chefe da vila por um estranho mascarado. Havia quem supusesse que o homem fosse o pai de Fei, mas nem mesmo o rapaz podia saber com certeza. Comentavam também sobre os pesadelos terríveis que ele tivera pouco depois, onde sempre chamava pelo pai. No entanto, ele mesmo não tinha qualquer lembrança anterior aquilo.Tendo terminado sua pintura, Fei resolveu ir ter com os amigos no andar de cima da sua casa, que conversavam animadamente com Lee, o chefe da vila. Entre eles estava Timothy, que foi o primeiro a vê-lo se aproximar.
_ Oi Fei! Desculpe usar a sua casa desse jeito, mas precisávamos nos reunir aqui hoje. É preciso conversar com o chefe sobre o grande dia de amanhã.
_ Ah, claro, o seu casamento com Alice! Isso sim é um grande dia!
_ Bom… é mesmo… mas ainda é meio difícil pensar nisso como realidade, sabe?
Fei se afastou um pouco, como se estivesse sem graça, antes de dizer:
_ Hã, Timothy… Eu só quero agradecer a você e à Alice… Há três anos, eu acordei nessa vila sem o menor vestígio da minha memória… não sabia quem era, onde tinha estado ou o que tinha feito até aquele dia… não podia me lembrar de nada. E, apesar disso, você e Alice simpatizaram comigo e me encorajaram a seguir
em frente. Se vocês dois não estivessem lá comigo, não sei o que teria me acontecido… – e, voltando-se para o amigo: _ Do fundo do coração, Timothy, obrigado mesmo! Você e a Alice merecem viver juntos pra sempre!
_ Hah, corta essa! – riu o outro – Não precisa ficar todo sentimental comigo… Seja como for, sempre senti como se tivesse sido seu amigo desde que éramos meninos. E vamos continuar sendo amigos pra sempre, certo?
_ É claro!
_ Ah, Fei, a propósito… – e pareceu lembrar de algo – Será que você podia ir ver como está a Alice? Ainda tem umas coisas pra eu discutir com meu pai e o Chefe Lee, mas tenho certeza de que ela gostaria de companhia.
_ Claro, sem problemas! Te vejo mais tarde, então.Fei estava prestes a sair quando entrou um garotinho pela mesma porta que ele usaria._ Ah, aí está você, Fei! Eu queria falar com você sobre uma coisinha!
_ Ei, como é que está, Dan? Tá animado hoje… como sempre, aliás.
_ O, Dan, não seja tão mal educado! – cortou Timothy – Pra quê entrar gritando desse jeito?
_ Saco, o Timothy também tá aqui. – resmungou o menino - Não enche, Timothy! Até casar com a minha irmã, você não tem nada a ver comigo. O meu negócio é com o meu amigo aqui, o Fei. – e virou-se para Fei:
_ Pois é, Fei, eu preciso falar com você depois…
_ O que foi, Dan? – o ar grave do menino fazia parecer sério – Parece coisa grave.
_ E é mesmo; por isso eu não posso falar aqui – e olhou feio para Timothy – Tem uma certa pessoa ouvindo que podia causar problemas. Temos que falar sério, um a um, de homem pra homem! Te encontro lá fora. - E voltando-se para Timothy:
_ Se cuida até amanhã, Timothy. – e mostrou a língua para o outro, saindo logo depois. Fei ficou olhando confuso para a porta e para o amigo.
_ O que é que há com ele, afinal?
_ E pensar que a partir de manhã eu vou ser cunhado desse moleque… – Timothy deu de ombros e riu: _ Hah! Essa parte não vai ser nenhuma lua-de-mel!
Ainda rindo, Fei saiu logo atrás de Dan. Era bom que Timothy tivesse aquele gênio animado; com o mau humor de Dan por causa do casamento iminente da irmã, ele obviamente iria precisar de ânimo!
Dan estava no meio do caminho para a casa de Alice e, vendo Fei se aproximar, chamou o rapaz de canto e perguntou:
_ Podemos conversar agora, Fei? É importante.
_ Claro Dan. O que foi?
_ Como você sabe, amanhã finalmente é o dia do casamento da minha irmã… – falou o menino num ar solene – e é bem sobre isso que eu quero falar: o casamento da Alice. Pra ser perfeitamente honesto com você, Fei… eu sempre quis que você fosse meu irmão. Ainda não é tarde demais. Você podia seqüestrar a Alice e fugir com ela! E, se precisar da minha ajuda, eu adoraria fazer qualquer coisa!
Fei ficou sem ação diante da surpresa enquanto, num tom mais calmo e baixo, Dan segredou;
_ Pode ser meio esquisito eu dizer isso, mas a minha irmã é bonita, cozinha bem… (e, só entre nós, ela é bem dotada, também! Heh, heh heh!) E aí? O que você acha?
_ Tá bom, Dan, você venceu. Acho que eu vou simplesmente pôr Alice no colo e correr com ela pra longe daqui!
_ Mesmo? – o rosto do menino se iluminou – Eu sabia que gostava de você, Fei! Esse é o espírito! Mas… ia ser preciso mudar os sentimentos dos dois, também. E você precisaria gostar dela…
Como Fei esperava, era mais uma das idéias de Dan. Bastava dar corda suficiente e ele próprio percebia os furos do plano. O menino era genioso, mas tinha bom senso. Apesar de ter sido obrigado a se resignar, ele ainda parecia satisfeito.
_ Seja como for, você se dispôs a me ajudar. Obrigado, Fei! Você é um cara legal.
Fei despediu-se de Dan e chegou logo à casa de Alice. Era o bom de viver numa vila pequena; não demorava nada chegar de um lugar a outro. A vizinha na porta foi a primeira a recebe-lo, animada:
_ Oi, Fei! Veio ver Alice? Bom… é costume não se deixar homem nenhum ver a noiva… mas acho que você pode ser uma exceção. Entre!
Apesar de ser um “forasteiro”, não nascido em Lahan, Fei havia sido como que adotado pelo Chefe Lee, era um pintor habilidoso e o conhecimento de artes marciais que tinha, mesmo sem lembrar como aprendera, já salvara mais de uma vez as pessoas de Lahan dos monstros que habitavam nas redondezas. A coragem do rapaz e seu bom caráter tinham conseguido a confiança de todo o povo dali naquele curto intervalo de três anos. Cumprimentando a tia de Alice, que criara a moça e o irmão dela depois da morte de seus pais, Fei subiu até o quarto de Alice. Ela estava lá, fazendo retoques no vestido branco que usaria no dia seguinte._ Oi, Alice. Esse é o seu vestido de casamento?
_ Hã? Fei, você me assustou! – e voltou-se para o vestido – É sim. Eu acabei de terminar. Demorou mais do que eu pensava.
_ Hmmm… – Fei se aproximou e deu uma boa olhada, com ar de aprovação – Você fez um bom trabalho! Vai ficar muito bem em você, Alice. Parabéns.
_ Obrigada…
Ela desviou o rosto e alguma coisa no silêncio parecia querer dizer que havia mais a ser dito. Fei sentiu-se inquieto, pensando no que devia ou não dizer, e quando resolveu falar, Alice fez o mesmo.
_ Hã, Alice…
_ Sabe, Fei…
Os dois pararam e se olharam, meio sem jeito, até Fei fazer sinal para que ela falasse.
_ Desculpa, Alice. O que foi?
_ Ah… nada.
_ Sei…
Os dois continuavam um tanto encabulados, e Alice recomeçou:
_ Ah, sim. Fei… você viu o Dan?
_ Vi sim. Ele tá lá fora. – sorriu – Resmungando como sempre.
_ Ai, esse menino! E eu pedi a ele para se apressar! Queria que ele me fizesse um favor.
_ Que tipo de favor?
_ Pro meu casamento amanhã. Eu queria que ele emprestasse uma câmera e alguns flashes do Dr. Uzuki, no pico da montanha.
O Dr. Citan Uzuki era conhecido de toda a Vila de Lahan. Vivia com sua esposa e a filha pequena no pico da montanha próxima à vila e também era muito considerado pelas pessoas dali por sua ajuda médica e, também, por seus inventos estranhos. Era um amigo de longa data de Fei, que se ofereceu:
_ Se é só isso, eu ficaria feliz em ir pedir pra você.
_ Mesmo? Ah, Fei, mas ia ser abusar…
_ Que nada, não é incômodo nenhum. Além disso, não me deixa muito à vontade pensar no Dan carregando coisas que quebram tão fácil. E pra completar, eu posso ter a chance de provar mais um pouco da comida da Yui se for até a casa do Doc.
_ Esse é o meu Fei.
O riso de Alice espantou um pouco aquele clima de desconforto de antes, e Fei já estava quase na escada quando ela tornou a chamar.
_ Fei… espere um pouco.
_ Hã? – ele voltou-se – Tem mais alguma coisa que quer que eu traga?
Ela tornou a se voltar, um tanto sem jeito e torcendo as mãos de nervosismo antes de responder:
_ Não… não é bem isso…
Fei ficou sem entender e ela, ainda sem olhar para ele, perguntou:
_ Fei… Alguma vez você pensou nas coisas assim? – foi até a janela e continuou sempre evitando olhar para Fei – Se… Se, ao menos, você tivesse nascido nesta vila… e se tivéssemos nos conhecido antes…
Agora foi a vez dele de ficar sem jeito. Houve silêncio, porque nenhum dos dois sabia o que dizer, até que Alice disse:
_ … N-não é nada. Me desculpe…
_ Bom… Acho que é melhor eu… ir andando, então.
_ Ah… Tudo bem. Cuide-se e dê minhas lembranças ao doutor.
Fei ainda olhou para ela um instante antes de sair. Alice ouviu a porta lá embaixo se fechando e perguntou a si mesma:
_ Isso é o destino? – e baixou os olhos, vendo Fei tomar o rumo da montanha - Eu me sinto tão idiota. A quem estou enganando?
Aquela conversa com Alice acompanhou Fei durante todo o seu caminho rumo à casa do Dr. Citan Uzuki. Quando algo como o plano de Dan vinha exclusivamente da cabeça dele, era fácil pensar numa bobagem de criança; vindo de Alice, no entanto, fez Fei se surpreender perguntando o que realmente teria acontecido se as coisas fossem como ela imaginara. Meio aborrecido consigo mesmo e sem jeito com o que estava quase pensando, ele chegou ao topo da montanha sem maiores problemas.
A casa do doutor tinha três andares, sendo o primeiro a sala de visitas e a cozinha, o segundo os quartos e o terceiro um observatório de onde se viam todos os arredores , incluindo a fronteira de Kislev. Ainda havia um último cômodo nos fundos do terreno onde o doutor fazia sua experiências com eletrônica. Fei imaginou se ele não estaria lá quando chegasse. E, de fato, quem o recebeu foi a esposa de Citan.
_ Olá, Fei! Há quanto tempo.
_ Oi, Yui. Onde está o doc?
_ Meu marido está mexendo na sua sucata lá nos fundos, como sempre.
_ Eu já imaginava. Será que ele nunca se cansa de brincar com essas coisas? Bom, é melhor eu ir falar com ele. Com licença, Yui.
Midori, a filha do casal, estava tão quieta quanto de costume. Fei costumava brincar com ela durante suas visitas, mas a menina não estava disposta a sair do lado da mãe naquela tarde
em particular. Indo para os fundos da casa, no entanto, Fei não via o doutor em parte alguma e nem ouvia o costumeiro som de ferramentas. Olhando em volta, ele perguntou em voz baixa:
_ Afinal, onde é que você está, Doc?
Um som de explosão pareceu fazer o quarto dos fundos tremer e Fei olhou para o alto, procurando a razão do barulho. Foi quando ouviu uma voz conhecida de lá;
_ Ahhh, isso não é nada bom! Por quê eles usam essas peças tão inferiores? É por isso que a intervenção deles às extrações…
E lá estava ele, óculos de quatro lentes no rosto e o costumeiro sobretudo verde, olhando para uma máquina que mais parecia um caranguejo com uma hélice e com ar de reprovação a um painel fumegante.
_ Doc! Então era aí que você estava!
O doutor voltou-se. Tinha cabelos negros e olhos da mesma cor e um aspecto de intelectual que combinava com a sua figura. Esse mesmo aspecto traía sua natureza de estudioso, mas escondia sua outra natureza: o Dr. Uzuki conhecia técnicas de ether como o próprio Fei e seu conhecimento de artes marciais no mínimo rivalizava com o do rapaz. Ninguém sabia ao certo do passado do doutor e sua família e, como sempre eram tão bons com todos, ninguém o incomodava procurando saber. Ele deixou o ar de decepção de lado e abriu prontamente um sorriso ao reconhecer o rapaz.
_ Ah, olá, Fei! É bom ver você!
_ Você tá bem, Doc? O que está tentando fazer aí em cima?
_ Ah, achei que poderia tentar consertar este Caranguejo de Areia. E, quanto àquela explosão, não precisa se preocupar. Acontece o tempo todo.
Ambos riram. Sim, Fei podia se lembrar de visitas anteriores e de algumas vezes em que ajudara o doutor. Explosões eram um tanto comuns na casa do Dr. Uzuki quando ele começava com suas experiências.
_ Pode esperar um pouco, Fei? Estou prestes a terminar por hoje. Ah, e a propósito, tem uma coisa interessante no depósito. Por quê não dá uma olhada enquanto eu termino aqui? Não vou demorar.
_ Claro, Doc. Mas, por favor, se apresse. Vai escurecer antes que perceba.
Fei não achava nada ruim a idéia de ficar para o jantar. Como dissera à Alice, a comida de Yui era mesmo excelente. Mas o doutor já se machucara cismando em prolongar afazeres até depois do pôr do Sol e foi pensando nisso que o rapaz entrou no depósito. Lá, bem no meio de várias das coisas do doutor, havia uma caixa dourada grande sobre uma mesa.
_ Então, era disso que o Doc estava falando –e começou a tatear a caixa, intrigado – Vamos ver… O que há de tão interessante em…?
Foi quando ele tocou num botão lateral e engrenagens começaram a se mover. Fei deu um pulo de surpresa para trás enquanto a caixa abriu-se para todos os lados, revelando uma estatueta branca de anjo belíssima, ao mesmo tempo em que luzes coloridas se fizeram presentes e a estatueta começou a girar lentamente e uma canção suave se fez ouvir, como numa caixa de música.
_ O q-que… é isso?
Talvez fosse a estatueta, ou talvez as luzes, mas Fei de repente sentiu um estranho calor dentro de si. Haviam… lembranças… algo dentro de si que moveu-se inquieto, e então ele percebeu que era a música.
_ Essa música…? Eu… tenho a impressão de ter ouvido antes, em algum lugar…?
_ O que você acha? Nada mau hein?
Fei voltou-se e o doutor entrou, tornando a saúda-lo.
_ Olá outra vez, Fei. Desculpe tê-lo feito esperar. – foi diretamente para a caixa e também admirou a estatueta por algum tempo, perdido em pensamentos – A música é uma coisa misteriosa… às vezes, faz as pessoas se lembrarem de coisas que não esperavam. Pensamentos, sentimentos, memórias… Coisas quase esquecidas… Pouco importando se o ouvinte deseja se lembrar delas ou não…
_ Doc, o que é isso…?
_ Foi retirada de algumas ruínas antigas, e ainda está
em reparos. Obviamente é um equipamento de áudio de algum tipo. – e tornou a olhar pensativamente para a estátua giratória – Há muito tempo, pessoas ouviam esta melodia, como estamos fazendo agora… Às vezes, eles podem ter ficado alegres… enquanto às vezes podem ter sido levados às lágrimas.
Fei ficou em silêncio, pensando consigo mesmo o quanto o que o doutor dissera parecia combinar com ele. Ouvindo aquilo ele sentia algo caloroso em seu coração, mas também uma profunda e inexplicável tristeza, como a lembrança de algo precioso perdido várias vezes. Perdido em pensamentos, Fei foi trazido de volta pela voz do doutor:
_ Aliás, o que traz você aqui hoje?
_ Hã? Ah, é mesmo! Alice pediu para emprestar a sua câmera, Doc.
_ Ah, claro. O casamento dela é manhã, certo…? Então, é melhor irmos pegar o que ela pediu. E, a propósito, Fei, o jantar deve ficar pronto
em breve. Gostaria de se juntar a os?
_ Claro que gostaria! Eu estava esperando que o senhor convidasse.
_ Bem, eu ainda tenho que fazer uma limpeza por aqui. Importa-se de fazer companhia à Midori lá em casa?
_ Claro. Fique à vontade, Doc. Eu vou à frente e como quando o jantar estiver pronto.
_ Ótimo. – riu o doutor – Vá na frente, então. Mas eu não vou ser responsável se você ficar com dor de estômago por comer a comida de minha esposa, Yui.
Fei foi até a porta, ainda sorrindo, mas voltou-se para comentar com Citan, sério de novo.
_ Doc… Eu me sinto estranho quando ouço essa música… Sinto… algo quente por dentro.
Com o ar pensativo de sempre, com a mão sob o queixo, o doutor comentou:
_ Talvez seja porque você tem alguém vivendo dentro de você. E ele também deve ter gostado desta música há muito tempo atrás, antes de se tornar parte de você…
Fei fez cara de quem não estava entendendo e saiu, enquanto Citan comentava consigo mesmo:
_ Meu Deus, o casamento de Timothy e Alice é mesmo amanhã. – seus pensamentos divagaram – Pode mesmo ser melhor viver uma vida comum, nesta condição… como um filho de homem…
Citan balançou sua cabeça, como se para escapar de um pensamento mais profundo antes de lembrar do que estivera consertando._ Bom, que seja. Acho que seria melhor eu consertar o rotor, pelo menos…
Foi quando ele percebeu que as luzes coloridas estavam diminuindo depressa, bem como a música. Voltando-se para a caixa, Citan percebeu que a estátua parara de girar e parecia se mover de forma diferente. No começo só um balanço, que se tornou uma tremedeira frenética e cada vez mais forte, até que subitamente se quebrou em pedaços sem que nada a atingisse. E o doutor Citan Uzuki sentiu um calafrio.
_ Não pode ser… S-será que… isso é um presságio?
Aproximou-se e examinou a estatueta. O anjo parecia ter se quebrado de dentro para fora, apesar de ser uma estátua maciça. Citan tornou a pôr a mão no queixo, como costumava fazer quando meditando ou preocupado.
_ … E agora, o que vai acontecer…?
O jantar, como de costume, estava perfeito. Fei não poupou elogios à comida e Yui ficou muito satisfeita.
_ Se gostou tanto assim, Fei, você pode vir comer quando quiser. É bom ter companhia pra jantar, especialmente quando gostam tanto da nossa comida.
_ E quanto ao equipamento fotográfico, Fei – comentou o doutor – é melhor deixar que eu o levo amanhã bem cedo. Não me deixa muito à vontade a idéia de ver você lidando com coisas tão delicadas.
_ Onde foi que eu ouvi isso antes? Bem, então vou indo. Até amanhã Yui, Midori.
_ Boa noite, Fei, e até amanhã.
Midori continuou em silêncio como sempre e o doutor acompanhou Fei até o portão. Ainda pensando no que acontecera com a caixa de música, Citan recomendou cuidado no retorno à vila, mas Fei comentou despreocupadamente:
_ Está tudo bem, doc. Essa não é a hora de atividade dos monstros da montanha. Vejo vocês no casamento, amanhã.
_ Bem… está certo. Até amanhã, Fei.
De fato, o caminho de retorno estava tranqüilo e até agradável com o ar da noite, sem monstros errantes em parte alguma. Fei estava cruzando a ponte entre um dos penhascos que faziam parte do caminho de volta quando ouviu um som acima de si. Voltando os olhos para cima, viu formas humanas enormes passando sobre si em alta velocidade, cortando o céu da noite com um estrondo de motores.
_ Gigantes…?
_ Fei!
Era o Dr. Uzuki quem vinha correndo e Fei perguntou:
_ Doc, o que era aquilo? Aquelas coisas enormes que passaram agora há pouco…
_ Então você também viu. A julgar pela direção que vieram eu diria que eram Gears do nosso país vizinho, Kislev.
_ Quer dizer que aquelas coisas são Gears…
Estrondos e sons de explosão começaram a soar no sopé da montanha e ambos ficaram alarmados.
_ Explosões? Fei, por acaso aqueles Gears não tomaram o rumo de…
_ Lahan!
_ Isso é um absurdo! Lahan está em território de Aveh! O que poderia atrair um esquadrão de Gears de Kislev até aqui? E, mais importante, será que eles pousaram em Lahan?
_ Um combate de Gears no meio da vila seria uma catástrofe, Doc! Nós temos que fazer alguma coisa!
_ Vamos, Fei! Precisamos correr!
Ambos se apressaram rumo à vila e Fei viu seus piores temores ficando maiores na medida em que se aproximavam. Incêndios por toda a parte transformavam a noite em dia e, por toda a parte, pessoas corriam de um lado para o outro para escapar do combate. Quando por fim chegaram, viram que o pior estava mesmo acontecendo: os Gears estavam em combate em plena vila. Em meio ao caos das pessoas correndo e da fumaça, Citan viu duas pessoas conhecidas.
_ Alice! Timothy!
Chamados, o casal foi até onde Fei e o doutor estavam, com Timothy dizendo:
_ Doutor, eles simplesmente vieram de lugar nenhum e pousaram bem no meio da nossa vila…!
_ Eu sei, eu sei, isso é um absurdo. Mas por enquanto, vocês estão bem?
_ Sim – respondeu Alice – mas não conseguimos encontrar o Dan em lugar nenhum!
_ Vou procurar mais uma vez – falou Timothy – Vá na frente, Alice, e saia da vila.
_ Espere um pouco, Timothy – interveio o doutor – É melhor que você, Alice e o resto do pessoal evacuem a área. As coisas podem piorar.
_ Mas doc, você sabe que eu não posso simplesmente deixar Dan para trás!
_ Eu sei como se sente, mas deixe o resto comigo e com Fei. Antes de mais nada, você precisa se preocupar com a sua segurança e a da sua noiva. É responsabilidade sua proteger Alice.
Isso era um argumento forte, mas Timothy ainda parecia inseguro; então, Fei apoiou o doutor.
_ É como o doc disse. Saiam da vila os dois e não se preocupem com o Dan. Se eu o conheço ele já deve ter saído e espera por vocês em algum lugar. Se não, eu mesmo o levo assim que puder.
_ É… Acho que vocês estão certos. – concordou Timothy – Vamos, Alice! Vamos deixar o Dr. Uzuki e o Fei cuidarem das coisas agora.
_ Sim… está certo. Obrigada doutor. Mas, Fei… por favor, procure pelo Dan!
_ Se ele ainda estiver na vila, pode ter certeza de que eu vou salva-lo.
_ Agora mexam-se, vocês dois! – ordenou Citan – Fei, eu vou procurar nas casas por alguém que não tenha saído. E você vai andar pela vila, conduzindo os perdidos a um lugar seguro!
_ Certo doc. Cuide-se.
_ Você também.
Timothy e Alice saíram da vila, Citan tomou o rumo das casas e Fei seguiu para a praça principal de Lahan. Um grupo de Gears estava lá em combate, com três Gears militares menores de Kislev enfrentando um Gear negro solitário, disparando com suas metralhadoras sobre ele e tudo o mais ao redor. Mais um estrondo fez com que tudo parecesse tremer e o próprio Fei caiu ao chão. Quando tornou a erguer-se viu o Gear negro em posição de espera, sobre o joelho direito e com a escotilha do piloto no peito aberta, e um cadáver desconhecido no chão. Obviamente, o último ataque derrubara o piloto, mas o Gear ainda parecia em condição de batalha. Em meio ao clarão das chamas e o reflexo no metal, Fei viu que ainda parecia haver alguém no comando: um garoto. Uma criança terrivelmente familiar.
_ Hã?
Uma imagem se formou na mente de Fei, semelhante ao crucifixo que tinha consigo, balançando e cintilando contra a luz. Tornou a olhar para a cabina do Gear e viu quando o menino abriu um sorriso, e a cabina pareceu se fechar. Havia algo perturbador naquele sorriso e a imagem do crucifixo ondulou para o outro lado, enquanto Fei se tornava agudamente consciente das batidas cada vez mais rápidas do próprio coração.
O Dr. Citan Uzuki acabara de sair de outra casa e encaminhara os habitantes para a saída mais próxima da vila e estava indo no rumo da praça central de Lahan. Foi quando notou que Fei estava subindo no Gear.
_ Fei? Fei, espere!
O rapaz não pareceu ouvi-lo, alheio a tudo. A cabina se fechou e o Gear tornou a ficar de pé, colocando-se em posição de combate e voltando-se para os Gears de Kislev. Atrás dele, Citan gritou:
_ Fei, não faça isso! Você não deve lutar aqui…!!
O Gear negro dirigiu-se para frente e confrontou dois dos Gears de Kislev. Na cabina do piloto, uma voz metálica falou num idioma que Fei não compreendeu em nada até que dissesse:
_ Modificador lingüístico ativado. Identificado: dialeto dos Cordeiros de Ignas. Modo simples ativado. Sincronizando interface de entrada com tempo normal de reflexo do piloto. Aviso ao piloto: Modo de Combate! Prestes a entrar em combate! Unidades de combustível restantes: 1200. Use anel de comando à esquerda da tela para atacar. Mova as alavancas para movimento e aperte os botões pré-determinados para iniciar seqüência de ataque automática.
O sinal se tornou mais agudo e a voz, ainda metálica, assumiu um tom mais urgente:
_ Aviso! Gears inimigos agora preparando-se para atacar! Encerrar modo de auxílio!
Dois Gears de Kislev atacaram com suas metralhadoras, mas apesar de alguns eventuais acertos, a blindagem do Gear negro suportou bem enquanto Fei moveu-se e derrubou o primeiro inimigo com apenas dois movimentos. O segundo estava afastado demais para que Fei evitasse seu ataque mas, meio que movido inconscientemente, o rapaz usou sua técnica do Chi, o Tiro Guiado. Quando lutava sozinho, a técnica condensava a força do seu espírito num projétil que sempre atingia o alvo; dentro da máquina amplificadora de Ether do Gear, no entanto, Fei disparou uma torrente de energia devastadora no segundo rival que o derrotou completamente. Mal derrotara a dupla de atacantes, no entanto, quando mais um grupo pousou exatamente diante dele.
_ Reforços, hein?
Outro grupo pousou à sua direita e Fei perguntou-se quantos mais daqueles Gears haviam ali. Em meio aos novos ataques, Fei também percebeu um modelo diferente entre os inimigos: um majestoso Gear de bronze que apenas manteve-se à parte, de braços cruzados, como se observasse a batalha. Forçado ao limite pelo número avassalador de inimigos, Fei disse a si mesmo:
_ Eu acho que não tenho escolha… a não ser lutar!
E tornou a atacar o grupo de Gears. Na praça de Lahan, o doutor Uzuki também observava.
_ Fei…! A forma como está lutando… – e ficou apreensivo – Isso não é nada bom! Se ‘ele’ despertar aqui…
_ Doc!
Uma voz familiar chamou à sua direita e ele viu Dan sair correndo de uma casa em chamas com algo em suas mãos.
_ Dan, você está bem? O que, diabos, está fazendo aqui?! Timothy e Alice ficaram preocupados!
_ Eu sinto muito Dr. Uzuki. Eu saí antes da vila, mas tive que voltar. Não podia suportar a idéia de que o vestido de noiva da minha irmã ia se perder.
Foi quando Citan conseguiu reconhecer o pacote feito ás pressas por Dan.
_ Você voltou apenas para salvar o vestido de casamento da sua irmã? Heh… quem diria que você era um garotinho tão sentimental? – os sons de metralhadora e golpes de metal em metal se fizeram ouvir de novo e Citan conduziu Dan – Depressa, Dan. Temos que aproveitar enquanto Fei mantém aqueles Gears ocupados. Ao que parece, eles estão atrás do Gear
em que Fei está…
Dan voltou-se para o combate. O Gear negro saltou sobre uma rajada de metralhadoras e derrubou seu atacante com um golpe e o menino pareceu reconhecer aqueles movimentos. Fei estivera ensinando a ele algo do que sabia de artes marciais e o Gear negro movia-se da mesma forma que Fei.
_ Fei está… dentro daquele monstro?
_ Fei está preso… – disse o Dr. Uzuki com um rosto entristecido – ao destino negro e cruel de deus…
Outro Gear inimigo tombou com uma seqüência de golpes rápidos e o Gear negro parou, sua cabeça quase parecendo viva e com uma expressão feroz enquanto se mantinha parado e em guarda, durante uma pausa nos ataques inimigos. A postura e mesmo a feição ilusória pareciam-se com as de Fei para Dan.
_ … Fei?
Após um instante de contemplação, o doutor conduziu o menino para o lado, alertando:
_ Venha, Dan! É melhor que nos afastemos daqui.
_ Dan!!
Era Timothy, que vinha por outra ala da vila e parecia aliviado ao ver o menino em segurança junto a Citan.
_ Eu sabia que você ainda estava na vila! Rapaz, como estou feliz que você esteja bem!
Foi quando os Gears atacantes se aproximaram de Timothy, notando sua presença. O rapaz ficou parado sem saber o que fazer diante daquela ameaça metálica, e Fei gritou;
_ Esperem, não atirem! Desgraçados, estas pessoas não têm nada a ver com vocês!
E tentou ajudar Timothy, mas dois Gears de Kislev cortaram sua frente, bloqueando-o
_ Saiam do caminho, bastardos!
Um golpe rápido derrubou outro dos Gears e o Gear de bronze, que se mantivera passivo até então, fez um sinal para o soldado à sua esquerda, que abriu fogo na direção de Timothy.
_ Pare com isso! – gritou Fei – Eu disse pareeee!!!!
A rajada atingiu Timothy em cheio, matando-o instantaneamente. Foi quando Fei sentiu uma pontada aguda em sua mente e viu outra vez o crucifixo balançar, cintilando na luz. Viu um garotinho com olhar espantado, com sangue salpicado em seu rosto e seu cabelo. O crucifixo balançou para o outro lado e os cabelos do menino agora cobriam seus olhos. E, em meio ao sangue que escorria em seu rosto, ele sorriu.
Fei curvara-se na cabina, sentindo a dor aguda. Ele então levantou-se, os cabelos escondendo parte do seu rosto, e ele sorriu. No ato, feixes intensos de luz emanaram do Gear negro e devastaram tudo à sua volta, começando pelos Gears inimigos e passando por casas, pessoas próximas e terminando em Alice. À distância, Dan gritou pela irmã mas foi contido por Citan um instante antes do último lampejo vermelho que se deu antes da explosão.
Fei despertou na manhã seguinte, confuso. Não se lembrava de nada do que havia acontecido e nem como chegara ali. A primeira coisa que reconheceu foi que não estava em sua cama, mas sob uma árvore.
_ Hã…! Onde eu…?
Olhando em volta, ele viu um grupo de pessoas reunidas e o Dr. Uzuki entre elas, que viu quando ele despertou.
_ Ah, finalmente você recuperou a consciência, Fei…
_ Doc, o que aconteceu? – perguntou o rapaz, confuso – Onde é que estão o Chefe Lee, Timothy, Alice…? O que foi que…?
_ Sim… – Citan parecia inseguro, sem saber por onde começar – Bem, é que…
Foi quando Dan adiantou-se, passando por Citan e olhando com raiva para Fei.
_ Seu assassino!
Fei e Citan voltaram-se para o menino e, enquanto o doutor procurava acalma-lo, Fei perguntou:
_ O quê? Dan, o que quer dizer com…?
_ Fei… – Dan livrou-se do doutor e correu os olhos por toda a volta – Isso aconteceu… porque você teve que entrar naquele monstro…! Alice, Timothy e todas as pessoas…! – voltou seu olhar para Fei novamente – Você matou a todos usando aquele monstro…!!
Foi quando Fei percebeu que Dan falava do Gear negro que estava atrás de si, de pé e imóvel como uma estátua. Fei não conseguia se lembrar de nada posterior ao momento
em que Timothy fora baleado, mas ouvia a voz de Dan e outras em seguida falando:
_ Por quê você teve que lutar no meio da vila? Como sabia pilotar um monstro desses?
_ Mãe? Cadê minha mãe…?
_ Viu, eu te disse… disse que deixar alguém de quem nós não sabíamos nada vir morar na nossa vila queria dizer desastre…
_ Ooooh… Dói… Dói tanto…
Fei virou o rosto, voltando-se para Dan e o povo da vila e fez menção de aproximar-se, mas todos começaram a se afastar com medo e raiva em seus rostos. Mesmo as crianças. Mas ninguém parecia pior do que Dan.
_ Seu assassino! A minha irmã… Me devolva a minha irmã!!
_ Dan , não há nada a se ganhar pondo a culpa toda em Fei – disse o Dr. Uzuki com a mão nos ombros do menino – E, mais importante, você sabe que Fei não tinha como controlar o mal funcionamento daquele Gear.
_ Eu… eu sei disso! – murmurou o menino, choramingando – Mas… Mas… – voltou-se para Fei e gritou – EU ODEIO VOCÊ!
E saiu correndo sem olhar para trás. Fei pensou em correr atrás dele e viu que não teria o que dizer se o alcançasse. E o doutor disse:
_ Pode ser melhor se o deixarmos sozinho por enquanto. Ele não sabe o que fazer com sua raiva, sua angústia…
Fei apenas baixou sua cabeça, sentindo-se com o peso do mundo inteiro sobre os ombros. Dan estava certo. Ele era mesmo um assassino. Era aquele que matara o povo da vila e a destruíra, de forma pior que os Gears inimigos poderiam ter feito. E ele ouviu Citan dizer:
_ A propósito, Fei… Pode ser uma boa idéia se você resolver deixar este lugar. Não há garantias de que um novo esquadrão não venha pra cá. Eles provavelmente vão querer saber o que houve com seus companheiros. Além disso – e olhou para as pessoas reunidas – a sua presença não vai deixar a atmosfera mais alegre… se é que me entende. Pode ser melhor para você e os outros se você partir.
_ Sim, eu acho que está certo… O desastre aconteceu porque eu estava aqui… mas o que eu devo fazer agora?
_ Sim, bem… Por quê não cruzar a Floresta da Lua Negra e seguir rumo a Aveh? Tenho certeza de que os soldados de ontem não eram de lá e, se você estiver em território de Aveh, eles não serão capazes de localiza-lo tão facilmente.
_ Tá… eu entendo, Doc. Por favor… tome conta das coisas por aqui.
_ É claro. Bem… cuide-se.
Fei não disse mais nada, afastando-se devagar. Antes, porém, parou e deu uma última olhada para o povo sobrevivente de Lahan e para o Dr. Uzuki. Depois, voltou-se para o Gear negro reluzente e ouviu a voz acusadora em sua própria mente, enquanto a máquina parecia fita-lo nos olhos:
“Você matou a todos usando aquele monstro…!!”
“Assassino! A minha irmã… me devolva a minha irmã!!!”
Não havia nada que ele pudesse dizer ou fazer, por mais que quisesse. Com um nó na garganta, Fei afastou-se sem olhar para trás.