A Grande Guerra

Posted by: Luis in Guerra No Comments »

Prólogo : Aconteceu há muito tempo 

A ‘Mahanon’, uma grande nave colonizadora, enfrentou um súbito problema em seus sistemas. De repente, depois de uma luz, todos os monitores da cabina de comando registraram perigo. A tripulação alertou que os controles estavam um a um sendo dominados por algo. O capitão imediatamente ordenou que o comando manual fosse estabelecido, mas o desligamento do sistema automático falhou. Contatos com a sala de máquinas também falharam. Ao perceber uma espécie de programa-vírus dominando todo o maquinário, o capitão ordenou a evacuação imediata dos passageiros e da tripulação, incluindo o pessoal da cabina de comando. Ficando para trás ele viu, horrorizado, que o invasor desconhecido dominara os sistemas de defesa da nave e estava usando os canhões da “Mahanon” contra as naves de fuga que saíam, impedindo que alguém escapasse vivo.Os enormes cabos de energia da nave romperam o casco e começaram a se agitar no espaço como se fossem os tentáculos de algum monstro, e uma mensagem repetida tomou todos os monitores da cabina em letras vermelhas.
          “Vocês se tornarão deuses.”
          O painel que o capitão ativou em seguida era independente do sistema contaminado. Ele digitou sua senha, ligou o sistema de autodestruição e então deu uma olhada no relicário que trazia consigo, com uma foto com a esposa e a filha que não tornaria a ver. Segundos depois, uma série de explosões programadas fez a ‘Mahanon’ desaparecer num clarão, próxima à órbita de um planeta.
          Próxima aos destroços do corpo principal da nave, “ela” se levantou. Os longos cabelos púrpura ondulavam com o vento e seus olhos refletiam a escuridão da noite e as estrelas cadentes que eram as demais partes da nave caindo. Foi neste dia que “Deus” e a “humanidade” chegaram a Ignas. 

Capítulo 01: A Vila de Lahan

O Continente de Ignas, no hemisfério norte do nosso mundo. Neste, o maior continente, uma guerra tem seguido entre dois países por centenas de anos. Ao norte do continente jaz o Império de Kislev; ao sul, está o Reino do Deserto de Aveh.
          A guerra durou por tanto tempo que as pessoas esqueceram da causa, conhecendo apenas o círculo sem fim de hostilidade e tragédias. A obsessão crônica da guerra em breve encontraria uma mudança devastadora. Isso se deveu ao “Ethos”, uma instituição que preserva a cultura do nosso mundo, reparando ferramentas e armas escavadas das ruínas de uma civilização antiga. Ambos os países escavavam estas ruínas e pediam ao “Ethos” que consertasse as descobertas, a fim de aumentar seu poder militar.
          As variadas armas escavadas das ruínas alteraram grandemente o desempenho do esforço de guerra. O resultado das batalhas entre os dois países não era mais determinado pelo combate homem a homem, mas por ‘Gears’ – máquinas de combate humanóides gigantes – que eram obtidos do interior mais profundo das ruínas. Eventualmente, depois de mudanças constantes no estado de guerra, Kislev conseguiu ficar por cima. O principal fator por trás disso estava na enorme diferença entre a quantidade de recursos enterrados no interior de suas ruínas. Mas, de repente, uma força militar misteriosa apareceu no continente de Ignas. Chamados de ‘Gebler’, esta força decidiu fazer contato com Aveh. Com a ajuda desta força militar Gebler, Aveh conseguiu recuperar-se de sua desesperada minoria para voltar até a fazer par com Kislev. Então, tomando vantagem de sua recém-conquistada aliança, Aveh começou a capturar um território após o outro de Kislev, sem mostrar qualquer indicação de diminuir sua campanha de invasão.
          A história começa na vila remota de Lahan, nos limites de Aveh, próxima à fronteira de Kislev…

 

          A vila está
em chamas. Pessoas correm por toda a volta enquanto a escuridão da noite é rompida pelo tom vermelho-brilhante das labaredas em seus lares. Um grupo de Gears militares enfrenta um Gear solitário, pilotado pelo jovem Fei Fong Wong, já cansado pelo esforço.
          _ Huff… Puff… Malditos!
          Apesar de nunca ter pilotado um Gear na vida, Fei conseguiu derrubar alguns dos soldados sem maiores problemas. Mas os Gears inimigos tornaram a se pôr de pé.
          _ O que, raios, é você? – ele pergunta – Não importa como eu o derrube, ainda consegue ficar de pé?
          A poucos metros da batalha o Dr. Citan Uzuki, amigo próximo de Fei e do povo da vila tenta se fazer ouvir:
          _ Fei, pare! Você não deve lutar aqui!
          Uma rajada de metralhadora do Gear inimigo e Fei procurou se desviar, sendo atingido por pouco pelo mesmo que acabara de derrubar. Tornando à carga, o Gear de Fei atinge mais uma vez o outro e torna a derruba-lo.
          _ Maldição… Por quê? Por quê tiveram de vir aqui? Pra quê fazer isso?
          A única resposta é o som das chamas que continuam consumindo a vila, alheias à luta.

 

Mais duas pinceladas e parecia pronto. Com um olhar crítico, Fei se afastou um pouco da tela e achou que bastava por hora, resolvido a tirar uma folga. Não tinha idéia de onde viera a inspiração que o levara a pintar aquele quadro, mas quando dera por si, já estava bem adiantado no trabalho. Geralmente, só pintava os arredores de Lahan, onde vivia. Era um rapaz alto, de longos cabelos castanhos presos e também era um mistério. Três anos antes, ele aparecera em Lahan todo sujo de sangue e ensopado da tempestade. Muitos dos aldeões não acharam que suportaria, mas o líder da vila o acolhera e a constituição firme do rapaz impediu o pior. No entanto, ele não se lembrava de coisa alguma anterior a isso, sabendo apenas que fora entregue ao chefe da vila por um estranho mascarado. Havia quem supusesse que o homem fosse o pai de Fei, mas nem mesmo o rapaz podia saber com certeza. Comentavam também sobre os pesadelos terríveis que ele tivera pouco depois, onde sempre chamava pelo pai. No entanto, ele mesmo não tinha qualquer lembrança anterior aquilo.Tendo terminado sua pintura, Fei resolveu ir ter com os amigos no andar de cima da sua casa, que conversavam animadamente com Lee, o chefe da vila. Entre eles estava Timothy, que foi o primeiro a vê-lo se aproximar.
          _ Oi Fei!  Desculpe usar a sua casa desse jeito, mas precisávamos nos reunir aqui hoje. É preciso conversar com o chefe sobre o grande dia de amanhã.
          _ Ah, claro, o seu casamento com Alice! Isso sim é um grande dia!
          _ Bom… é mesmo… mas ainda é meio difícil pensar nisso como realidade, sabe?
          Fei se afastou um pouco, como se estivesse sem graça, antes de dizer:
          _ Hã, Timothy… Eu só quero agradecer a você e à Alice… Há três anos, eu acordei nessa vila sem o menor vestígio da minha memória… não sabia quem era, onde tinha estado ou o que tinha feito até aquele dia… não podia me lembrar de nada. E, apesar disso, você e Alice simpatizaram comigo e me encorajaram a seguir
em frente. Se vocês dois não estivessem lá comigo, não sei o que teria me acontecido… – e, voltando-se para o amigo: _ Do fundo do coração, Timothy, obrigado mesmo! Você e a Alice merecem viver juntos pra sempre!
          _ Hah, corta essa! – riu o outro – Não precisa ficar todo sentimental comigo… Seja como for, sempre senti como se tivesse sido seu amigo desde que éramos meninos. E vamos continuar sendo amigos pra sempre, certo?
          _ É claro!
          _ Ah, Fei, a propósito… – e pareceu lembrar de algo – Será que você podia ir ver como está a Alice? Ainda tem umas coisas pra eu discutir com meu pai e o Chefe Lee, mas tenho certeza de que ela gostaria de companhia.
          _ Claro, sem problemas! Te vejo mais tarde, então.Fei estava prestes a sair quando entrou um garotinho pela mesma porta que ele usaria._ Ah, aí está você, Fei! Eu queria falar com você sobre uma coisinha!
          _ Ei, como é que está, Dan? Tá animado hoje… como sempre, aliás.
          _ O, Dan, não seja tão mal educado! – cortou Timothy – Pra quê entrar gritando desse jeito?
          _ Saco, o Timothy também tá aqui. – resmungou o menino - Não enche, Timothy! Até casar com a minha irmã, você não tem nada a ver comigo. O meu negócio é com o meu amigo aqui, o Fei. – e virou-se para Fei:
          _ Pois é, Fei, eu preciso falar com você depois…
          _ O que foi, Dan? – o ar grave do menino fazia parecer sério – Parece coisa grave.
          _ E é mesmo; por isso eu não posso falar aqui – e olhou feio para Timothy – Tem uma certa pessoa ouvindo que podia causar problemas. Temos que falar sério, um a um, de homem pra homem! Te encontro lá fora. - E voltando-se para Timothy:
          _ Se cuida até amanhã, Timothy. – e mostrou a língua para o outro, saindo logo depois. Fei ficou olhando confuso para a porta e para o amigo.
          _ O que é que há com ele, afinal?
          _ E pensar que a partir de manhã eu vou ser cunhado desse moleque… – Timothy deu de ombros e riu: _ Hah! Essa parte não vai ser nenhuma lua-de-mel!
          Ainda rindo, Fei saiu logo atrás de Dan. Era bom que Timothy tivesse aquele gênio animado; com o mau humor de Dan por causa do casamento iminente da irmã, ele obviamente iria precisar de ânimo!
          Dan estava no meio do caminho para a casa de Alice e, vendo Fei se aproximar, chamou o rapaz de canto e perguntou:
          _ Podemos conversar agora, Fei? É importante.
          _ Claro Dan. O que foi?
          _ Como você sabe, amanhã finalmente é o dia do casamento da minha irmã… – falou o menino num ar solene – e é bem sobre isso que eu quero falar: o casamento da Alice. Pra ser perfeitamente honesto com você, Fei… eu sempre quis que você fosse meu irmão. Ainda não é tarde demais. Você podia seqüestrar a Alice e fugir com ela! E, se precisar da minha ajuda, eu adoraria fazer qualquer coisa!
          Fei ficou sem ação diante da surpresa enquanto, num tom mais calmo e baixo, Dan segredou;
          _ Pode ser meio esquisito eu dizer isso, mas a minha irmã é bonita, cozinha bem… (e, só entre nós, ela é bem dotada, também! Heh, heh heh!) E aí? O que você acha?
          _ Tá bom, Dan, você venceu. Acho que eu vou simplesmente pôr Alice no colo e correr com ela pra longe daqui!
          _ Mesmo? – o rosto do menino se iluminou – Eu sabia que gostava de você, Fei! Esse é o espírito! Mas… ia ser preciso mudar os sentimentos dos dois, também. E você precisaria gostar dela…
          Como Fei esperava, era mais uma das idéias de Dan. Bastava dar corda suficiente e ele próprio percebia os furos do plano. O menino era genioso, mas tinha bom senso. Apesar de ter sido obrigado a se resignar, ele ainda parecia satisfeito.
          _ Seja como for, você se dispôs a me ajudar. Obrigado, Fei! Você é um cara legal.
          Fei despediu-se de Dan e chegou logo à casa de Alice. Era o bom de viver numa vila pequena; não demorava nada chegar de um lugar a outro. A vizinha na porta foi a primeira a recebe-lo, animada:
          _ Oi, Fei! Veio ver Alice? Bom… é costume não se deixar homem nenhum ver a noiva… mas acho que você pode ser uma exceção. Entre!
          Apesar de ser um “forasteiro”, não nascido em Lahan, Fei havia sido como que adotado pelo Chefe Lee, era um pintor habilidoso e o conhecimento de artes marciais que tinha, mesmo sem lembrar como aprendera, já salvara mais de uma vez as pessoas de Lahan dos monstros que habitavam nas redondezas. A coragem do rapaz e seu bom caráter tinham conseguido a confiança de todo o povo dali naquele curto intervalo de três anos. Cumprimentando a tia de Alice, que criara a moça e o irmão dela depois da morte de seus pais, Fei subiu até o quarto de Alice. Ela estava lá, fazendo retoques no vestido branco que usaria no dia seguinte._ Oi, Alice. Esse é o seu vestido de casamento?
          _ Hã? Fei, você me assustou! – e voltou-se para o vestido – É sim. Eu acabei de terminar. Demorou mais do que eu pensava.
          _ Hmmm… – Fei se aproximou e deu uma boa olhada, com ar de aprovação – Você fez um bom trabalho! Vai ficar muito bem em você, Alice. Parabéns.
          _ Obrigada…
          Ela desviou o rosto e alguma coisa no silêncio parecia querer dizer que havia mais a ser dito. Fei sentiu-se inquieto, pensando no que devia ou não dizer, e quando resolveu falar, Alice fez o mesmo.
          _ Hã, Alice…
          _ Sabe, Fei…
          Os dois pararam e se olharam, meio sem jeito, até Fei fazer sinal para que ela falasse.
          _ Desculpa, Alice. O que foi?
          _ Ah… nada.
          _ Sei…
          Os dois continuavam um tanto encabulados, e Alice recomeçou:
          _ Ah, sim. Fei… você viu o Dan?
          _ Vi sim. Ele tá lá fora. – sorriu – Resmungando como sempre.
          _ Ai, esse menino! E eu pedi a ele para se apressar! Queria que ele me fizesse um favor.
          _ Que tipo de favor?
          _ Pro meu casamento amanhã. Eu queria que ele emprestasse uma câmera e alguns flashes do Dr. Uzuki, no pico da montanha.
          O Dr. Citan Uzuki era conhecido de toda a Vila de Lahan. Vivia com sua esposa e a filha pequena no pico da montanha próxima à vila e também era muito considerado pelas pessoas dali por sua ajuda médica e, também, por seus inventos estranhos. Era um amigo de longa data de Fei, que se ofereceu:
          _ Se é só isso, eu ficaria feliz em ir pedir pra você.
          _ Mesmo? Ah, Fei, mas ia ser abusar…
          _ Que nada, não é incômodo nenhum. Além disso, não me deixa muito à vontade pensar no Dan carregando coisas que quebram tão fácil. E pra completar, eu posso ter a chance de provar mais um pouco da comida da Yui se for até a casa do Doc.
          _ Esse é o meu Fei.
          O riso de Alice espantou um pouco aquele clima de desconforto de antes, e Fei já estava quase na escada quando ela tornou a chamar.
          _ Fei… espere um pouco.
          _ Hã? – ele voltou-se – Tem mais alguma coisa que quer que eu traga?
          Ela tornou a se voltar, um tanto sem jeito e torcendo as mãos de nervosismo antes de responder:
          _ Não… não é bem isso…
          Fei ficou sem entender e ela, ainda sem olhar para ele, perguntou:
          _ Fei… Alguma vez você pensou nas coisas assim? – foi até a janela e continuou sempre evitando olhar para Fei – Se… Se, ao menos, você tivesse nascido nesta vila… e se tivéssemos nos conhecido antes…
          Agora foi a vez dele de ficar sem jeito. Houve silêncio, porque nenhum dos dois sabia o que dizer, até que Alice disse:
          _ … N-não é nada. Me desculpe…
          _ Bom… Acho que é melhor eu… ir andando, então.
          _ Ah… Tudo bem. Cuide-se e dê minhas lembranças ao doutor.
          Fei ainda olhou para ela um instante antes de sair. Alice ouviu a porta lá embaixo se fechando e perguntou a si mesma:
          _ Isso é o destino? – e baixou os olhos, vendo Fei tomar o rumo da montanha - Eu me sinto tão idiota. A quem estou enganando?
          Aquela conversa com Alice acompanhou Fei durante todo o seu caminho rumo à casa do Dr. Citan Uzuki. Quando algo como o plano de Dan vinha exclusivamente da cabeça dele, era fácil pensar numa bobagem de criança; vindo de Alice, no entanto, fez Fei se surpreender perguntando o que realmente teria acontecido se as coisas fossem como ela imaginara. Meio aborrecido consigo mesmo e sem jeito com o que estava quase pensando, ele chegou ao topo da montanha sem maiores problemas.
          A casa do doutor tinha três andares, sendo o primeiro a sala de visitas e a cozinha, o segundo os quartos e o terceiro um observatório de onde se viam todos os arredores , incluindo a fronteira de Kislev. Ainda havia um último cômodo nos fundos do terreno onde o doutor fazia sua experiências com eletrônica. Fei imaginou se ele não estaria lá quando chegasse. E, de fato, quem o recebeu foi a esposa de Citan.
          _ Olá, Fei! Há quanto tempo.
          _ Oi, Yui. Onde está o doc?
          _ Meu marido está mexendo na sua sucata lá nos fundos, como sempre.
          _ Eu já imaginava. Será que ele nunca se cansa de brincar com essas coisas? Bom, é melhor eu ir falar com ele. Com licença, Yui.
          Midori, a filha do casal, estava tão quieta quanto de costume. Fei costumava brincar com ela durante suas visitas, mas a menina não estava disposta a sair do lado da mãe naquela tarde
em particular. Indo para os fundos da casa, no entanto, Fei não via o doutor em parte alguma e nem ouvia o costumeiro som de ferramentas. Olhando em volta, ele perguntou em voz baixa:
          _ Afinal, onde é que você está, Doc?
          Um som de explosão pareceu fazer o quarto dos fundos tremer e Fei olhou para o alto, procurando a razão do barulho. Foi quando ouviu uma voz conhecida de lá;
          _ Ahhh, isso não é nada bom! Por quê eles usam essas peças tão inferiores? É por isso que a intervenção deles às extrações…
          E lá estava ele, óculos de quatro lentes no rosto e o costumeiro sobretudo verde, olhando para uma máquina que mais parecia um caranguejo com uma hélice e com ar de reprovação a um painel fumegante.
          _ Doc! Então era aí que você estava!
          O doutor voltou-se. Tinha cabelos negros e olhos da mesma cor e um aspecto de intelectual que combinava com a sua figura. Esse mesmo aspecto traía sua natureza de estudioso, mas escondia sua outra natureza: o Dr. Uzuki conhecia técnicas de ether como o próprio Fei e seu conhecimento de artes marciais no mínimo rivalizava com o do rapaz. Ninguém sabia ao certo do passado do doutor e sua família e, como sempre eram tão bons com todos, ninguém o incomodava procurando saber. Ele deixou o ar de decepção de lado e abriu prontamente um sorriso ao reconhecer o rapaz.
          _ Ah, olá, Fei! É bom ver você!
          _ Você tá bem, Doc? O que está tentando fazer aí em cima?
          _ Ah, achei que poderia tentar consertar este Caranguejo de Areia. E, quanto àquela explosão, não precisa se preocupar. Acontece o tempo todo.
          Ambos riram. Sim, Fei podia se lembrar de visitas anteriores e de algumas vezes em que ajudara o doutor. Explosões eram um tanto comuns na casa do Dr. Uzuki quando ele começava com suas experiências.
          _ Pode esperar um pouco, Fei? Estou prestes a terminar por hoje. Ah, e a propósito, tem uma coisa interessante no depósito. Por quê não dá uma olhada enquanto eu termino aqui? Não vou demorar.
          _ Claro, Doc. Mas, por favor, se apresse. Vai escurecer antes que perceba.
          Fei não achava nada ruim a idéia de ficar para o jantar. Como dissera à Alice, a comida de Yui era mesmo excelente. Mas o doutor já se machucara cismando em prolongar afazeres até depois do pôr do Sol e foi pensando nisso que o rapaz entrou no depósito. Lá, bem no meio de várias das coisas do doutor, havia uma caixa dourada grande sobre uma mesa.
          _ Então, era disso que o Doc estava falando –e começou a tatear a caixa, intrigado – Vamos ver… O que há de tão interessante em…?
          Foi quando ele tocou num botão lateral e engrenagens começaram a se mover. Fei deu um pulo de surpresa para trás enquanto a caixa abriu-se para todos os lados, revelando uma estatueta branca de anjo belíssima, ao mesmo tempo em que luzes coloridas se fizeram presentes e a estatueta começou a girar lentamente e uma canção suave se fez ouvir, como numa caixa de música.
          _ O q-que… é isso?
          Talvez fosse a estatueta, ou talvez as luzes, mas Fei de repente sentiu um estranho calor dentro de si. Haviam… lembranças… algo dentro de si que moveu-se inquieto, e então ele percebeu que era a música.
          _ Essa música…? Eu… tenho a impressão de ter ouvido antes, em algum lugar…?
          _ O que você acha? Nada mau hein?
          Fei voltou-se e o doutor entrou, tornando a saúda-lo.
          _ Olá outra vez, Fei. Desculpe tê-lo feito esperar. – foi diretamente para a caixa e também admirou a estatueta por algum tempo, perdido em pensamentos – A música é uma coisa misteriosa… às vezes, faz as pessoas se lembrarem de coisas que não esperavam. Pensamentos, sentimentos, memórias… Coisas quase esquecidas… Pouco importando se o ouvinte deseja se lembrar delas ou não…
          _ Doc, o que é isso…?
          _ Foi retirada de algumas ruínas antigas, e ainda está
em reparos. Obviamente é um equipamento de áudio de algum tipo. – e tornou a olhar pensativamente para a estátua giratória – Há muito tempo, pessoas ouviam esta melodia, como estamos fazendo agora… Às vezes, eles podem ter ficado alegres… enquanto às vezes podem ter sido levados às lágrimas.
          Fei ficou em silêncio, pensando consigo mesmo o quanto o que o doutor dissera parecia combinar com ele. Ouvindo aquilo ele sentia algo caloroso em seu coração, mas também uma profunda e inexplicável tristeza, como a lembrança de algo precioso perdido várias vezes. Perdido em pensamentos, Fei foi trazido de volta pela voz do doutor:
          _ Aliás, o que traz você aqui hoje?
          _ Hã? Ah, é mesmo! Alice pediu para emprestar a sua câmera, Doc.
          _ Ah, claro. O casamento dela é manhã, certo…? Então, é melhor irmos pegar o que ela pediu. E, a propósito, Fei, o jantar deve ficar pronto
em breve. Gostaria de se juntar a os?
          _ Claro que gostaria! Eu estava esperando que o senhor convidasse.
          _ Bem, eu ainda tenho que fazer uma limpeza por aqui. Importa-se de fazer companhia à Midori lá em casa?
          _ Claro. Fique à vontade, Doc. Eu vou à frente e como quando o jantar estiver pronto.
          _ Ótimo. – riu o doutor – Vá na frente, então. Mas eu não vou ser responsável se você ficar com dor de estômago por comer a comida de minha esposa, Yui.
          Fei foi até a porta, ainda sorrindo, mas voltou-se para comentar com Citan, sério de novo.
          _ Doc… Eu me sinto estranho quando ouço essa música… Sinto… algo quente por dentro.
          Com o ar pensativo de sempre, com a mão sob o queixo, o doutor comentou:
          _ Talvez seja porque você tem alguém vivendo dentro de você. E ele também deve ter gostado desta música há muito tempo atrás, antes de se tornar parte de você…
          Fei fez cara de quem não estava entendendo e saiu, enquanto Citan comentava consigo mesmo:
          _ Meu Deus, o casamento de Timothy e Alice é mesmo amanhã. – seus pensamentos divagaram – Pode mesmo ser melhor viver uma vida comum, nesta condição… como um filho de homem…
          Citan balançou sua cabeça, como se para escapar de um pensamento mais profundo antes de lembrar do que estivera consertando._ Bom, que seja. Acho que seria melhor eu consertar o rotor, pelo menos…
          Foi quando ele percebeu que as luzes coloridas estavam diminuindo depressa, bem como a música. Voltando-se para a caixa, Citan percebeu que a estátua parara de girar e parecia se mover de forma diferente. No começo só um balanço, que se tornou uma tremedeira frenética e cada vez mais forte, até que subitamente se quebrou em pedaços sem que nada a atingisse. E o doutor Citan Uzuki sentiu um calafrio.
          _ Não pode ser… S-será que… isso é um presságio?
          Aproximou-se e examinou a estatueta. O anjo parecia ter se quebrado de dentro para fora, apesar de ser uma estátua maciça. Citan tornou a pôr a mão no queixo, como costumava fazer quando meditando ou preocupado.
          _ … E agora, o que vai acontecer…? 

O jantar, como de costume, estava perfeito. Fei não poupou elogios à comida e Yui ficou muito satisfeita.
          _ Se gostou tanto assim, Fei, você pode vir comer quando quiser. É bom ter companhia pra jantar, especialmente quando gostam tanto da nossa comida.
          _ E quanto ao equipamento fotográfico, Fei – comentou o doutor – é melhor deixar que eu o levo amanhã bem cedo. Não me deixa muito à vontade a idéia de ver você lidando com coisas tão delicadas.
          _ Onde foi que eu ouvi isso antes? Bem, então vou indo. Até amanhã Yui, Midori.
          _ Boa noite, Fei, e até amanhã.
          Midori continuou em silêncio como sempre e o doutor acompanhou Fei até o portão. Ainda pensando no que acontecera com a caixa de música, Citan recomendou cuidado no retorno à vila, mas Fei comentou despreocupadamente:
          _ Está tudo bem, doc. Essa não é a hora de atividade dos monstros da montanha. Vejo vocês no casamento, amanhã.
          _ Bem… está certo. Até amanhã, Fei.
          De fato, o caminho de retorno estava tranqüilo e até agradável com o ar da noite, sem monstros errantes em parte alguma. Fei estava cruzando a ponte entre um dos penhascos que faziam parte do caminho de volta quando ouviu um som acima de si. Voltando os olhos para cima, viu formas humanas enormes passando sobre si em alta velocidade, cortando o céu da noite com um estrondo de motores.
          _ Gigantes…?
          _ Fei!
          Era o Dr. Uzuki quem vinha correndo e Fei perguntou:
          _ Doc, o que era aquilo? Aquelas coisas enormes que passaram agora há pouco…
          _ Então você também viu. A julgar pela direção que vieram eu diria que eram Gears do nosso país vizinho, Kislev.
          _ Quer dizer que aquelas coisas são Gears…
          Estrondos e sons de explosão começaram a soar no sopé da montanha e ambos ficaram alarmados.
          _ Explosões? Fei, por acaso aqueles Gears não tomaram o rumo de…
          _ Lahan!
          _ Isso é um absurdo! Lahan está em território de Aveh! O que poderia atrair um esquadrão de Gears de Kislev até aqui? E, mais importante, será que eles pousaram em Lahan?
          _ Um combate de Gears no meio da vila seria uma catástrofe, Doc! Nós temos que fazer alguma coisa!
          _ Vamos, Fei! Precisamos correr!
          Ambos se apressaram rumo à vila e Fei viu seus piores temores ficando maiores na medida em que se aproximavam. Incêndios por toda a parte transformavam a noite em dia e, por toda a parte, pessoas corriam de um lado para o outro para escapar do combate. Quando por fim chegaram, viram que o pior estava mesmo acontecendo: os Gears estavam em combate em plena vila. Em meio ao caos das pessoas correndo e da fumaça, Citan viu duas pessoas conhecidas.
          _ Alice! Timothy!
          Chamados, o casal foi até onde Fei e o doutor estavam, com Timothy dizendo:
          _ Doutor, eles simplesmente vieram de lugar nenhum e pousaram bem no meio da nossa vila…!
          _ Eu sei, eu sei, isso é um absurdo. Mas por enquanto, vocês estão bem?
          _ Sim – respondeu Alice – mas não conseguimos encontrar o Dan em lugar nenhum!
          _ Vou procurar mais uma vez – falou Timothy – Vá na frente, Alice, e saia da vila.
          _ Espere um pouco, Timothy – interveio o doutor – É melhor que você, Alice e o resto do pessoal evacuem a área. As coisas podem piorar.
          _ Mas doc, você sabe que eu não posso simplesmente deixar Dan para trás!
          _ Eu sei como se sente, mas deixe o resto comigo e com Fei. Antes de mais nada, você precisa se preocupar com a sua segurança e a da sua noiva. É responsabilidade sua proteger Alice.
          Isso era um argumento forte, mas Timothy ainda parecia inseguro; então, Fei apoiou o doutor.
          _ É como o doc disse. Saiam da vila os dois e não se preocupem com o Dan. Se eu o conheço ele já deve ter saído e espera por vocês em algum lugar. Se não, eu mesmo o levo assim que puder.
          _ É… Acho que vocês estão certos. – concordou Timothy – Vamos, Alice! Vamos deixar o Dr. Uzuki e o Fei cuidarem das coisas agora.
          _ Sim… está certo. Obrigada doutor. Mas, Fei… por favor, procure pelo Dan!
          _ Se ele ainda estiver na vila, pode ter certeza de que eu vou salva-lo.
          _ Agora mexam-se, vocês dois! – ordenou Citan – Fei, eu vou procurar nas casas por alguém que não tenha saído. E você vai andar pela vila, conduzindo os perdidos a um lugar seguro!
          _ Certo doc. Cuide-se.
          _ Você também.
          Timothy e Alice saíram da vila, Citan tomou o rumo das casas e Fei seguiu para a praça principal de Lahan. Um grupo de Gears estava lá em combate, com três Gears militares menores de Kislev enfrentando um Gear negro solitário, disparando com suas metralhadoras sobre ele e tudo o mais ao redor. Mais um estrondo fez com que tudo parecesse tremer e o próprio Fei caiu ao chão. Quando tornou a erguer-se viu o Gear negro em posição de espera, sobre o joelho direito e com a escotilha do piloto no peito aberta, e um cadáver desconhecido no chão. Obviamente, o último ataque derrubara o piloto, mas o Gear ainda parecia em condição de batalha. Em meio ao clarão das chamas e o reflexo no metal, Fei viu que ainda parecia haver alguém no comando: um garoto. Uma criança terrivelmente familiar.
          _ Hã?
          Uma imagem se formou na mente de Fei, semelhante ao crucifixo que tinha consigo, balançando e cintilando contra a luz. Tornou a olhar para a cabina do Gear e viu quando o menino abriu um sorriso, e a cabina pareceu se fechar. Havia algo perturbador naquele sorriso e a imagem do crucifixo ondulou para o outro lado, enquanto Fei se tornava agudamente consciente das batidas cada vez mais rápidas do próprio coração. 

O Dr. Citan Uzuki acabara de sair de outra casa e encaminhara os habitantes para a saída mais próxima da vila e estava indo no rumo da praça central de Lahan. Foi quando notou que Fei estava subindo no Gear.
          _ Fei? Fei, espere!
          O rapaz não pareceu ouvi-lo, alheio a tudo. A cabina se fechou e o Gear tornou a ficar de pé, colocando-se em posição de combate e voltando-se para os Gears de Kislev. Atrás dele, Citan gritou:
          _ Fei, não faça isso! Você não deve lutar aqui…!!
          O Gear negro dirigiu-se para frente e confrontou dois dos Gears de Kislev. Na cabina do piloto, uma voz metálica falou num idioma que Fei não compreendeu em nada até que dissesse:
          _ Modificador lingüístico ativado. Identificado: dialeto dos Cordeiros de Ignas. Modo simples ativado. Sincronizando interface de entrada com tempo normal de reflexo do piloto. Aviso ao piloto: Modo de Combate! Prestes a entrar em combate! Unidades de combustível restantes: 1200. Use anel de comando à esquerda da tela para atacar. Mova as alavancas para movimento e aperte os botões pré-determinados para iniciar seqüência de ataque automática.
          O sinal se tornou mais agudo e a voz, ainda metálica, assumiu um tom mais urgente:
          _ Aviso! Gears inimigos agora preparando-se para atacar! Encerrar modo de auxílio!
          Dois Gears de Kislev atacaram com suas metralhadoras, mas apesar de alguns eventuais acertos, a blindagem do Gear negro suportou bem enquanto Fei moveu-se e derrubou o primeiro inimigo com apenas dois movimentos. O segundo estava afastado demais para que Fei evitasse seu ataque mas, meio que movido inconscientemente, o rapaz usou sua técnica do Chi, o Tiro Guiado. Quando lutava sozinho, a técnica condensava a força do seu espírito num projétil que sempre atingia o alvo; dentro da máquina amplificadora de Ether do Gear, no entanto, Fei disparou uma torrente de energia devastadora no segundo rival que o derrotou completamente. Mal derrotara a dupla de atacantes, no entanto, quando mais um grupo pousou exatamente diante dele. 
          _ Reforços, hein?
          Outro grupo pousou à sua direita e Fei perguntou-se quantos mais daqueles Gears haviam ali. Em meio aos novos ataques, Fei também percebeu um modelo diferente entre os inimigos: um majestoso Gear de bronze que apenas manteve-se à parte, de braços cruzados, como se observasse a batalha. Forçado ao limite pelo número avassalador de inimigos, Fei disse a si mesmo:
          _ Eu acho que não tenho escolha… a não ser lutar!
          E tornou a atacar o grupo de Gears. Na praça de Lahan, o doutor Uzuki também observava.
          _ Fei…! A forma como está lutando… – e ficou apreensivo – Isso não é nada bom! Se ‘ele’ despertar aqui…
          _ Doc!
          Uma voz familiar chamou à sua direita e ele viu Dan sair correndo de uma casa em chamas com algo em suas mãos.
          _ Dan, você está bem? O que, diabos, está fazendo aqui?! Timothy e Alice ficaram preocupados!
          _ Eu sinto muito Dr. Uzuki. Eu saí antes da vila, mas tive que voltar. Não podia suportar a idéia de que o vestido de noiva da minha irmã ia se perder.
          Foi quando Citan conseguiu reconhecer o pacote feito ás pressas por Dan.
          _ Você voltou apenas para salvar o vestido de casamento da sua irmã? Heh… quem diria que você era um garotinho tão sentimental? – os sons de metralhadora e golpes de metal em metal se fizeram ouvir de novo e Citan conduziu Dan – Depressa, Dan. Temos que aproveitar enquanto Fei mantém aqueles Gears ocupados. Ao que parece, eles estão atrás do Gear
em que Fei está…
          Dan voltou-se para o combate. O Gear negro saltou sobre uma rajada de metralhadoras e derrubou seu atacante com um golpe e o menino pareceu reconhecer aqueles movimentos. Fei estivera ensinando a ele algo do que sabia de artes marciais e o Gear negro movia-se da mesma forma que Fei.
          _ Fei está… dentro daquele monstro?
          _ Fei está preso… – disse o Dr. Uzuki com um rosto entristecido – ao destino negro e cruel de deus…
          Outro Gear inimigo tombou com uma seqüência de golpes rápidos e o Gear negro parou, sua cabeça quase parecendo viva e com uma expressão feroz enquanto se mantinha parado e em guarda, durante uma pausa nos ataques inimigos. A postura e mesmo a feição ilusória pareciam-se com as de Fei para Dan.
          _ … Fei?
          Após um instante de contemplação, o doutor conduziu o menino para o lado, alertando:
          _ Venha, Dan! É melhor que nos afastemos daqui.
          _ Dan!!
          Era Timothy, que vinha por outra ala da vila e parecia aliviado ao ver o menino em segurança junto a Citan.
          _ Eu sabia que você ainda estava na vila! Rapaz, como estou feliz que você esteja bem!
          Foi quando os Gears atacantes se aproximaram de Timothy, notando sua presença. O rapaz ficou parado sem saber o que fazer diante daquela ameaça metálica, e Fei gritou;
          _ Esperem, não atirem! Desgraçados, estas pessoas não têm nada a ver com vocês!
          E tentou ajudar Timothy, mas dois Gears de Kislev cortaram sua frente, bloqueando-o
          _ Saiam do caminho, bastardos!
          Um golpe rápido derrubou outro dos Gears e o Gear de bronze, que se mantivera passivo até então, fez um sinal para o soldado à sua esquerda, que abriu fogo na direção de Timothy.
          _ Pare com isso! – gritou Fei – Eu disse pareeee!!!!
          A rajada atingiu Timothy em cheio, matando-o instantaneamente. Foi quando Fei sentiu uma pontada aguda em sua mente e viu outra vez o crucifixo balançar, cintilando na luz. Viu um garotinho com olhar espantado, com sangue salpicado em seu rosto e seu cabelo. O crucifixo balançou para o outro lado e os cabelos do menino agora cobriam seus olhos. E, em meio ao sangue que escorria em seu rosto, ele sorriu.
          Fei curvara-se na cabina, sentindo a dor aguda. Ele então levantou-se, os cabelos escondendo parte do seu rosto, e ele sorriu. No ato, feixes intensos de luz emanaram do Gear negro e devastaram tudo à sua volta, começando pelos Gears inimigos e passando por casas, pessoas próximas e terminando em Alice. À distância, Dan gritou pela irmã mas foi contido por Citan um instante antes do último lampejo vermelho que se deu antes da explosão.



          Fei despertou na manhã seguinte, confuso. Não se lembrava de nada do que havia acontecido e nem como chegara ali. A primeira coisa que reconheceu foi que não estava em sua cama, mas sob uma árvore.
          _ Hã…! Onde eu…?
          Olhando em volta, ele viu um grupo de pessoas reunidas e o Dr. Uzuki entre elas, que viu quando ele despertou.
          _ Ah, finalmente você recuperou a consciência, Fei…
          _ Doc, o que aconteceu? – perguntou o rapaz, confuso – Onde é que estão o Chefe Lee, Timothy, Alice…? O que foi que…?
          _ Sim… – Citan parecia inseguro, sem saber por onde começar – Bem, é que…
          Foi quando Dan adiantou-se, passando por Citan e olhando com raiva para Fei.
          _ Seu assassino!
          Fei e Citan voltaram-se para o menino e, enquanto o doutor procurava acalma-lo, Fei perguntou:
          _ O quê? Dan, o que quer dizer com…?
          _ Fei… – Dan livrou-se do doutor e correu os olhos por toda a volta – Isso aconteceu… porque você teve que entrar naquele monstro…! Alice, Timothy e todas as pessoas…! – voltou seu olhar para Fei novamente – Você matou a todos usando aquele monstro…!!
          Foi quando Fei percebeu que Dan falava do Gear negro que estava atrás de si, de pé e imóvel como uma estátua. Fei não conseguia se lembrar de nada posterior ao momento
em que Timothy fora baleado, mas ouvia a voz de Dan e outras em seguida falando:
          _ Por quê você teve que lutar no meio da vila? Como sabia pilotar um monstro desses?
          _ Mãe? Cadê minha mãe…?
          _ Viu, eu te disse… disse que deixar alguém de quem nós não sabíamos nada vir morar na nossa vila queria dizer desastre…
          _ Ooooh… Dói… Dói tanto…
          Fei virou o rosto, voltando-se para Dan e o povo da vila e fez menção de aproximar-se, mas todos começaram a se afastar com medo e raiva em seus rostos. Mesmo as crianças. Mas ninguém parecia pior do que Dan.
          _ Seu assassino! A minha irmã… Me devolva a minha irmã!!
          _ Dan , não há nada a se ganhar pondo a culpa toda em Fei – disse o Dr. Uzuki com a mão nos ombros do menino – E, mais importante, você sabe que Fei não tinha como controlar o mal funcionamento daquele Gear.
          _ Eu… eu sei disso! – murmurou o menino, choramingando – Mas… Mas… – voltou-se para Fei e gritou – EU ODEIO VOCÊ!
          E saiu correndo sem olhar para trás. Fei pensou em correr atrás dele e viu que não teria o que dizer se o alcançasse. E o doutor disse:
          _ Pode ser melhor se o deixarmos sozinho por enquanto. Ele não sabe o que fazer com sua raiva, sua angústia…
          Fei apenas baixou sua cabeça, sentindo-se com o peso do mundo inteiro sobre os ombros. Dan estava certo. Ele era mesmo um assassino. Era aquele que matara o povo da vila e a destruíra, de forma pior que os Gears inimigos poderiam ter feito. E ele ouviu Citan dizer:
          _ A propósito, Fei… Pode ser uma boa idéia se você resolver deixar este lugar. Não há garantias de que um novo esquadrão não venha pra cá. Eles provavelmente vão querer saber o que houve com seus companheiros. Além disso – e olhou para as pessoas reunidas – a sua presença não vai deixar a atmosfera mais alegre… se é que me entende. Pode ser melhor para você e os outros se você partir.
          _ Sim, eu acho que está certo… O desastre aconteceu porque eu estava aqui… mas o que eu devo fazer agora?
          _ Sim, bem… Por quê não cruzar a Floresta da Lua Negra e seguir rumo a Aveh? Tenho certeza de que os soldados de ontem não eram de lá e, se você estiver em território de Aveh, eles não serão capazes de localiza-lo tão facilmente.
          _ Tá… eu entendo, Doc. Por favor… tome conta das coisas por aqui.
          _ É claro. Bem… cuide-se.
          Fei não disse mais nada, afastando-se devagar. Antes, porém, parou e deu uma última olhada para o povo sobrevivente de Lahan e para o Dr. Uzuki. Depois, voltou-se para o Gear negro reluzente e ouviu a voz acusadora em sua própria mente, enquanto a máquina parecia fita-lo nos olhos:
          “Você matou a todos usando aquele monstro…!!”
          “Assassino! A minha irmã… me devolva a minha irmã!!!”
          Não havia nada que ele pudesse dizer ou fazer, por mais que quisesse. Com um nó na garganta, Fei afastou-se sem olhar para trás.

Capitulo 3

O dia estava na sua nona hora, mas as nuvens no céu impediriam que qualquer um que soubesse dizer as horas de acordo com o Sol o fizesse, porque era difícil saber onde ele estava, eram densas as nuvens.

“Essas são filhas calmas…” – Esse era o pensamento do moço que ia dirigindo sua linda moto pela estrada manchada de neve, se é que havia tempo para pensar. A roupa de couro preta se destacava do branco dos resquícios de neve, assim como a própria moto e o capacete. A mais ou menos cinco quilômetros dele, subindo, se encontrava a “Casa do tio maluco”, como as crianças chamavam, ou para os funcionários a sede da empresa do senhor Luís Ferraz.

O ponto preto na neve alcançou seu destino. No último andar, no lado mais próximo do mar, Luís Ferraz ia andando para seu escritório, o capacete ainda na cabeça, assim como todo o resto da roupa no corpo. Tirou o capacete. Anne o viu. Olhou-o preocupado, o patrão trazia um novo brilho nos olhos. Anne se levantou.

– Luís, a neve atrasou a todos nós. Sua sala está trancada, então aqui estão os papéis… – Ela ia se levantando com os papéis recém-tirados de sua gaveta, uma pasta parda. Ferraz não falou nada, simplesmente abriu a mão na direção dela, ainda andando, e enquanto passava por ela a apontou. O andar treinado pela escola militar. Girou a maçaneta da porta de sua sala e entrou.

Parou diante de um papel na sua mesa. Olhar intrigado, a mão envolta pelo caríssimo couro preto da BMW mexeu-se e trouxe o papel aos olhos, que o leram várias vezes até se dar conta do que realmente estava escrito. “Olá, minha brilhante criança”. Papel de volta a mesa, do mesmo jeito como estava antes, a curiosidade ardia no peito do homem. O capacete foi jogado de lado, assim como rapidamente toda a roupa de couro. Por baixo ele usava uma alinhada camiseta pólo azul claro e calças pretas de algodão. Abriu um armário qualquer e tirou o terno e os sapatos. Colocou-os no corpo. Ligou o aquecedor. Abriu as cortinas e olhou o mar.

Anne estava assinando algumas autorizações que o chefe não precisasse fazê-lo, para não o incomodar. Achava ela que ele havia chegado irritado. Num repente então, a porta da sala do homem foi aberta. A primeira coisa que a mulher observou foi o fato do chefe estar sem camisa, e os olhos passearam pelo resto do corpo visível, já que somente uma parte o estava: a porta fora somente entre aberta.

– Chocolate quente com canela, caneca, água quente. Sem mais incômodos hoje.

Luís se virou, e deixou, distraidamente, por segundo, as nádegas visíveis a secretária. Bateu a porta com o pé.

– Ai, que homem! – Anne exclamou, enquanto se abanava naquele dia frio, e ia se levantando para providenciar o pedido.

.Capítulo I, Parte III. 

.Sexta feira, 20 de julho de 2006..19:00 P.M. 

.Henrique. 

            Finalmente mais aquele dia de trabalho havia acabado, poderia ir para casa tranqüilo, e apesar do extra que ainda levara para fazer a noite, não ficaria em casa mofando, o serviço que esperasse até a hora que desse vontade de fazê-lo.

            Ao chegar em casa, tirou a roupa que o incomodava o dia todo e trocou-a por “aquele” shorts e nada de camiseta, porque a melhor roupa era essa.

            Uns amigos passariam por ali mais tarde para saírem, pois de sexta feira a noite era impossível  ficar em casa. Mesmo sabendo que a noite tinha escola, novamente havia perdido o ano… mas quem sabe no outro ano pensasse em fazer supletivo para começar uma faculdade também. Mas a escola era o de menos naquele momento, descansaria um pouco até umas 21:30 e depois sairia para fazer farra com os amigos como pedia uma sexta feira tão bonita quanto aquela.

            Pareceu pouco tempo, mas já às 21:15 haviam mais cinco garotos batendo na porta da casa de Henrique, da onde iriam diretamente para o centro movimentado da cidade, o point dos jovens todos, onde havia diversão, festas, risos e sorrisos a vontade.

            A noite passara rápido, e sem os garotos perceberem já passava da meia noite. Foram dar uma volta, e passaram pela rua de um clube, e lá estava acontecendo uma “confraternização entre amigos”  de pessoas que eles seis nem imaginavam existir.

            Uau, no que passaram na frente do tal clube, haviam por ali três garotas, das quais duas aparentavam ter a mesma idade e uma ser mais nova. Eles não deixariam passar, e principalmente Henrique não deixaria passar batido aquela situação. Enquanto andavam, deram “Oi moças” e mesmo já nem esperando resposta, sorriram mais continuaram andando. Uma das garotas respondeu “Oi”, e a outra da mesma idade vergonhosamente também disse “Oi moços”. Não, aí já era acaso demais, sorte demais pra ser desperdiçada; os garotos disseram que “Ah não, pra umas moças educadas assim agente vai ter que voltar!”. Andaram até onde as três estavam e acomodaram-se por ali. Começaram a conversar, e mesmo as garotas parecendo assustadas com aquele bando no início, logo se mostravam mais a vontade.

            Uma das três havia chamado atenção especial de Henrique, que sentou-se ao lado dela. Era tão morena de olhos castanhos quanto as outras duas (que logo descobrira ser a irmã mais nova e amiga da mesma idade da moça ao lado dele), mas chamara-lhe uma atenção especial, e lhe atraiu furtivamente todos os pensamentos.

            Passaram quase duas horas ali conversando, e entre os milhares de assuntos, surgia uma troca de msn’s para serem guardados na memória, já que não era lá muito costumeiro andar com papel e caneta no bolso da jaqueta.

            Mais ou menos às 2:00 da madrugada, as três se despediram, dizendo que “Temos que voltar pra dentro do clube, pois logo nossos pais acabam querendo ir embora…”, os seis deram tchau para as garotas, mas Henrique sabia – ele percebera – que o possível adeus da moça especial tinha sido exclusivamente para ele, e sorriu para ela dando um possível primeiro e ultimo tchau.

            Andaram e conversaram empolgados sobre o “fato-por-acaso” daquela noite mas sem perceberem já era bem mais tarde do que imaginavam. Foram, cada um para sua casa, e talvez alguns deles ainda tivesse na cabeça o pensamento e as recordações recentes do que acontecera naquela inusitada noite, mas Henrique fora o único que antes de ir deitar-se ainda lembrara de um ultimo pequeno detalhe…

.Roberta. 

            Sim! Finalmente acabados aqueles enumeráveis cursos que preenchiam seus dias todos durante a semana! Tudo o que queria agora era aproveitar a noite na Internet, conversando com os amigos, altos papos, deliciosas risadas, pra na segunda feira no colégio rirem mais ainda sobre as tais conversas e aprofundarem mais ainda nesses tantos assuntos extremamente construtivos; diga-se: coisas de jovens.

            Mas… NÃO! Lá vinha seu pai pra acabar com toda essa felicidade de Rób. Não tinha como escapar dele… Queria que “as duas filhas lindas” fossem com ele e sua mãe para um churrasco com os amigos deles no clube. A garota esperneou, gritou, fez manha, implorou, chorou e tentou tudo mais pra ficar em casa, mas não adiantou, e daquela vez não teria escapatória. Sua única tranqüilidade era saber que Nick também estaria no clube e que teria, ao menos, com quem passar a noite de começo de inverno conversando.

            Ao chegar lá, deparou-se com os tão conhecidos amigos de seus pais, com as mesmas histórias e conversas chatas de sempre (coisa de gente dessa idade: dos 40 pra frente).

            Ela e a irmã mais nova, Mary, logo avistaram Nick por ali naquele “delicioso” churrasco. As três pegaram um copo de coca-cola cada uma e foram sentar-se na frente do clube para conversarem um pouco, longe daquela festa. Logo entraram e ficaram mais um bom tempo jogando sinuca e ping pong no salão de jogos, mas aquilo já havia cansado também.

            Foram, lá pelas 23:00, novamente para a frente do clube e conversavam animadas até que… Oh My God! Surgiu do nada uma renca de garotos, um mais lindo que o outro, passando bem ali na frente delas, e qual não foi a surpresa da garota ao ouvi-los dar “Oi” galantemente para elas. Nick respondera o oi cortesmente, e Rób, com receio de falar, meio envergonhada, também acabou respondendo.

            O frio não cessava, e os garotos parecendo surpresos com a resposta delas, disseram algo como “Foram muito educadas… Ah não, agente vai ter que voltar…” e logo aproximaram-se das três. A mais nova, irmã de Rób, aparentava ter ficado com um pouco de medo de tantos garotos e voltou para a festa, deixando a garota ali com Nick e os seis recém-conhecidos moços-do-acaso.

            Roberta havia reparado em um, um dos tais garotos que lhe chamou a atenção em especial. Era algo que não tinha ao certo uma explicação, e que talvez jamais tivesse, era uma coisa estranha, diferente, e ela sentia-se de um modo que era inexistente, coisa meio rara, que não identificara direito, mais que apenas sentia, e somente isso já bastava, era o suficiente.

            Logo aquele menino mais lindo sentou-se ao lado dela, bem do ladinho dela. Aquele ar quente que agora aconchegava Rób, aquela coisa estranha que sentia… Por fora demonstrava apenas felicidade, risos e sorrisos de um acontecimento inusitado, único na história do mundo, ela podia afirmar quase com certeza totalmente completa.

            Uau, e ele ficara ali, ao lado dela, junto da garota durante quase duas horas. Haviam ali junto com os dois, Nick e mais os outro cinco garotos, mas pra ela eram só eles dois que importavam.

            Dentre milhões e milhares de assuntos, trocaram msn’s, idades, nomes e referências da onde moravam, e apesar de saber que era quase impossível serem todas essas coisas lembradas no dia seguinte sem serem anotadas, que era exatamente o caso deles, continuava falando e conversando, tão empolgada quanto todos os outros se mostravam.

            O tempo voava, e quando se deram conta já era quase (se não mais) de 2:00 da manhã. O frio aumentava, e logo despediram-se e cada um seguiu seu rumo, os garotos sabe-se lá pra onde e Rób e Nick de volta para o tal delicioso churrasco, já na hora certa em que seus pais começavam a se despedir para irem embora.

            Ao chegar em casa, anotou na agenda os nomes dos tais garotos e a deliciosa noite que ela e Nick tiveram com os recém-conhecidos. Logo adormeceu, pensando em todo aquele tempo com o garoto especial que talvez, e quase certamente, jamais voltaria a ver.

            No outro dia, 21 de julho, iria para a casa das avós, em uma cidadezinha “do tamanho de um ovo” ali perto, há menos de duas horas de “viagem”. Seu pai saiu cedo para ainda resolver alguns negócios do trabalho e sua mãe para comprar algumas coisas que precisava. A irmã de Roberta ainda dormia e a garota decidiu ligar o computador um pouco antes de “isolar-se do mundo” quando estivesse na cidade dos avós.

            E qual não foi sua surpresa ao ver ali, bem na sua frente o que menos esperava em toda sua vida…

.Capítulo I, Parte II. 

.Sexta feira, 20 de julho de 2006..12:00 P.M. 

 

.Henrique. 

            Ainda bem! Depois de horas de tortura no desagradável trabalho na mega-movimentada prefeitura da cidade, onde tudo acontecia, ele tinha sua hora de almoço, poderia descansar um pouco antes de voltar novamente para o stress do seu trabalho, mais do que cansativo. Como sempre, escolhera o restaurante do hotel ali do lado, pois seu tempo era extremamente limitado e seu horário de trabalho extremamente rígido.

            Não tinha já muito ânimo, encontrava-se cansado, sem vontade de fazer mais muitas coisas que ele sabia ainda ter que enfrentar naquele mesmo dia. Voltou com total desânimo para seu serviço, e sem vontade continuava com suas obrigações.

            A prefeitura da cidade tinha um grande jardim na frente, era enfeitada por vários tipos de árvores, flores e cores, deslumbrava quem passasse por ali. Era um prédio de quatro andares, negro como a noite, mas brilhante como as estrelas. Tinha um ar de seriedade, e era silenciosa como deveria ser uma prefeitura, onde cada um fazia sua parte e todos trabalhavam.

            Henrique ainda teria que agüentar mais meio período dentro daquele ambiente já por ele tão bem conhecido, que mesmo tão deslumbrante, tornava-se sem graça.

            Mas ainda tinha muito tempo aquele dia. Voltando a sua sala, tomou um pequeno copo de café quente e mesmo contra sua vontade voltou à seus afazeres diários, inesgotáveis, chatos e sem graça.

 

.Roberta. 

            Não podia reclamar do dia de hoje, por sorte, na sexta feira Rób tinha as matérias mais leves e menos cansativas da semana, e só de saber que mais uma sexta feira passara, depois das aulas intermináveis de biologia, filosofia, história, educação física e artes, percebia até que as aulas não haviam sido assim tão cansativas se comparadas com as de química, física, português e matemática do resto da semana.

            Aquele ambiente escolar tão chato em período da aula, tornava-se o lugar mais legal do mundo no fim da ultima aula, mais precisamente quando batia o sinal da saída. Todos os alunos saíam sorrindo, conversando, fofocando e alguns ainda mais felizes, porque alguém esperava-os do lado de fora dos portões do colégio. Geralmente, do 1º ano do Ensino Médio para cima, como era o caso de Roberta, quem sempre estaria esperando do lado de fora seriam namorados e namoradas felizes e apaixonados, ou amigos e amigas que sairiam para almoçar no shopping na sexta feira, e depois fariam farra juntos a tarde toda. No caso da garota de ainda seus 14 anos era diferente, sua mãe sempre ia buscar ela e a irmã mais nova na porta do colégio, de carro, e por mais que a jovem odiasse isso, não havia discussão sobre essas “idiotices de aborrecentes”, diziam seus pais, todo dia que ela se mostrava brava ou ironicamente rude quanto à situação.

            Para muitos o dia já acabara, a tarde fariam farra, sairiam para o shopping, para o cinema ou talvez namorariam em algum lugar romântico, aconchegante e bonito da cidade. Mas para Roberta isso também era diferente, as sextas a tarde sempre eram reservadas para suas aulas particulares de Francês, que eram adoráveis, e seriam perfeitas se não fossem justamente na sexta feira a tarde, justamente dia em que ela mais gostaria de ter livre para aproveitar com o que quisesse e bem entendesse.

            Passou em casa para almoçar e logo às 13:00 da tarde sairia para seu curso. Tudo aquilo tornava-se cansativo, e conseqüentemente chato, mas quanto a cursos extras, não discutia, pois como seus pais diziam, “são grandes oportunidades que tentamos dar a você, basta você dar valor, mostrar interesse e aproveitar”.            Antes de sair de casa, anotou algo em sua agenda e fez um “xis” de canetinha vermelha em sua mão direita, assim não esqueceria dos ‘planos para mais tarde’ de quase todas as sextas feiras.

.Capítulo I, Parte I. 

.Sexta feira, 20 de julho de 2006..06:00 A.M. 

.Henrique. 

            Mais um dia começava, o sol batia na janela do quarto, começando anunciar mais um novo dia, tão normal quanto todos os outros, sua única vantagem era estar numa sexta feira, pois sábado e domingo poderia descansar.

            A mãe de Henrique entra em seu quarto e repentinamente abre a janela, deixando à mostra o sol chegando para iluminar aquela manhã de julho. O garoto ainda relutante, sem vontade de levantar, esconde-se debaixo das cobertas e cobre a cabeça com o travesseiro, tentando esquivar-se do novo dia, fantasiando ainda estar dormindo tranqüilamente, sem ter compromissos logo ao amanhecer.

            Logo D. Julia começa a falar com o garoto algo como “Anda logo Rick, o café já está na mesa, e se demorar vai chegar atrasado.”, que ele já escutava e sabia muito bem, pois toda manhã ela repetia a mesma coisa, e ele sempre levantava mal humorado. Ah, como daria tudo para voltar um ano de sua vida e parar de crescer, já que no ano passado ele apenas estudava de manhã e tinha a tarde e a noite inteiras livres para fazer o que bem entendesse.

            Vestiu-se apressadamente, pois já perdera ao menos uns dez minutos enrolando antes de se levantar, tomou o café correndo e saiu rapidamente de bicicleta para o trabalho que o aguardava já há cinco minutos.

 

.Roberta. 

            Um novo dia era anunciado pelo sol lá fora, e por alguns malditos passarinhos que teimavam em cantar em sua janela toda manhã. Rapidamente e em pouco tempo a garota deveria levantar-se para a escola. Tudo o que esperava era que o dia passasse logo, tudo o que lhe confortava era aquele dia ser uma sexta feira, pois o próximo seria um delicioso sábado.

            Repentinamente D. Maria Augusta entra no quarto da filha e acorda-a, mandando a garota vestir-se para ir pro colégio, e num total desânimo ela obedece. Levanta da cama ainda sonolenta, acende a luz do quarto e abre o guarda roupas para procurar seu uniforme. Ao encontrá-lo, olha pra aquela roupa, que mais parecia uma fantasia de carnaval, tão colorida e cheia de enfeites era, e veste-a. Pega um short de malha, um tênis e arruma o cabelo. Passa pela cozinha rapidamente para tomar um copo de leite e vai para o banheiro escovar os dentes.

            Naquele dia sua primeira aula era biologia, e apesar da professora ser um doce, preferia não arriscar chegar atrasada. Pega sua bolsa e sai repentinamente, indo para o centro de tortura que todo dia aguardava-a, e que ela tanto abominava.

Parte 3

             Luís havia sido removido para  um dos quartos de visita do térreo da casa da amiga, e dentro do quarto ele estava deitado na cama, seu corpo havia cedido a febre, e a mãe de Luana e Raiane não conseguira acorda-lo nem mesmo para que ele tomasse algum tipo de remédio que pudesse baixar a febre. Obviamente, a mãe e o pai de Luís e Vanessa já haviam sido chamados, e estavam agora a caminho para resgatar o filho.

            Dentro do quarto, Luana havia pedido para ficar a sós com o amigo, e ela era mesma quem aplicava diversas compressas de água fria na testa do rapaz. Olhava para ele carinhosamente, e sozinha com ele poderia demonstrar, ao menos em seus olhos, o sentimento que se misturava a uma grande amizade. Falava palavras de encorajamento para ele, mas ele parecia não reagir a nada, e ter realmente se entregue a febre.

A garota pegara na mão de Luís quando praticamente todas as pessoas que se encontravam na casa entraram, junto com os pais do doente. Rapidamente, removeram ele para o carro, e se puseram a conversar com os pais de Luana para saber o que havia ocorrido. Luana estava no carro com Luís. O rapaz abriu os olhos levemente, e segurou as mãos da amiga entre as suas.

 

-          Luana… me desculpa, fiz besteira, juro que nunca mais vou…

            E a frase de Luís ficou cortada quando ele tombou a cabeça para o lado e os seus pais chegaram com sua irmã. Em sua casa, naquela noite, a mãe passou a noite inteira acordada cuidando do filho e ouvindo seus delírios enquanto a febre, em seus altíssimos quarenta graus, parecia não querer ceder. Somente no raiar do dia, enquanto chovia uma chuva fininha e o garoto chorava lágrimas quentes, a febre abaixou. E abaixou de uma vez, pois naquele mesmo diz ainda Luana foi visitar Luís, e estavam ambos felizes conversando e rindo animadamente: o garoto já estava plenamente bem.

          De um salto, Luís Ferraz caiu do sofá de sua sala no qual havia dormido. Olhou ao redor, e suspirou aliviado ao perceber que estava em casa… Ou pelo menos, estava com sua idade já avançada, e não era mais a criança frágil que se deixou ser usada… ou não foi esperta o suficiente para dominar. Pegou suas coisas e saiu da sala, deixando anotado num papel em sua mesa uma única palavra: Tromador.

Parte 2

Luana olhou espantada para Luís, e sentiu um vento frio percorrendo a varanda e correndo pelos seus cabelos, como os dedos de um pedófilo passando pelos fios dourados do cabelo de sua próxima vítima. Luana se arrepiou toda, mas mesmo assim focou o que Luís estava fazendo. O garoto ria, feliz, se divertindo.

 

- Olha, Luana, você está vendo?! Aqui, achamos, Lu, nós achamos! Está vendo? Saindo da caveira… – E colocou novamente o mindinho sobre a cadeira, dedo esse que estava em outro ponto do mapa - … E seguindo pela corda, a gente chega até isso aqui, está vendo?

          O ‘isso aqui’ apontado por Luís era uma construção disforme, e a corda era uma linha reta. Aliás, há alguns segundos atrás todas as figuras pareciam disformes para Luana, mas com o início da descrição de Luís elas começaram a tomar forma e, para a garota, que era sensível e boa, todas elas pareciam serem mais malignas que as outras.

­- E então, você está vendo? Daqui, a gente segue e segue, passa pelo Oásis… Olha, tem um moço no Oásis! Bem, deixa ele aí. Ta vendo aqui, o poço? O poço é o fim…

 

 

Enquanto Luís falava, sua voz se tornava mais alegre e empolgada, e o vento que brincava antes com os cabelos de Luana queria brincar com outras partes do corpo da garota. Ainda era o entardecer e o Sol estava se pondo em belíssimos e fortíssimos raios que ainda clareavam tudo, mas uma nuvem pesada se colocou na frente do Sol e o ambiente escureceu. Luana estava se empolgando com Luís naquelas imagens, mas as coisas ainda soavam estranhamente medonhas para ela. Ele apontou para a caveira nervosamente, os olhos grandes e brilhantes.

 

-          A caveira! Você percebeu, ela é a morte! A morte então é o iní… 

          A mocinha ao seu lado deu um grito quando sentiu uma grande onde de inquietação a invadindo, e interrompeu a fala de seu amigo. Agilmente, ela pegou o livro das mãos dele e fechou, correndo e colocando-o de volta no quarto de seu tio. Fechou a porta e voltou a varando, encontrando Luís deitado na rede, encolhido, lágrimas quentíssimas fluindo de seus olhos. Ela colocou as mãos no pescoço dele, e com olhos assustados, ela gritou pela mãe.

 

-          Mãe, corre até aqui! O Luís mãe, ele está ardendo em febre! Corre mãe, corre!

 

O vento frio parara de soprar, e a sensação que Luana estava sentindo havia passado. A nuvem havia passado, e agora os últimos raios se despediam daquele lado do planeta. 

Capitulo 2 - Parte 1

- Luana!

O menino correu para abraçar a amiga. A vira de manhã, durante as aulas, mas como moravam perto geralmente se encontravam durante as tarde de sexta-feira, já que no dia seguinte não tinham aula, o que significa que não tinham o que fazer durante as tardes de sexta. Luana retribuiu o abraço, olhando o amigo de alto a baixo.

- Eu realmente te vi hoje, garoto?! Você muda a cada instante…

Luana riu e o menino ficou um pouco vermelho, ela devia estar falando dos seus cabelos bagunçados que ele odivava arrumar, até porque não adiantava pentear já que ele não baixava. A mãe e a irmã do menino olhavam as duas crianças da porta do terreno da casa de Luana. De repente uma menina um tanto quanto ‘rechonchuda’ aparece na porta da casa, gritando e correndo em direção à mãe a irmã do menino.

- Sinhaaaa!! - A gordinha vinha gritando parecendo uma descabelada maluca que não via a luz do dia há várias semanas, o que em resumo quer dizer que ela era ‘meio’ exagerada. A irmã do garoto, cujo nome era Vanessa, andou deu alguns passos até se encontrar com a rechonchuda e abraçá-la.

- Tempo, Raiane! Raiane, espaço vital?! - Ela deu um leve gritinho com a amiga quando essa  a apertou, e Vanessa, cujo apelido vinha de Vanessinha, a empurrou e destruiu o abraço. De longe, Luana e Luís olhavam para as duas enquanto suas mãos ainda não haviam se soltado. A mãe de Luís e Vanessa olhou para as mãos de Luana e Luís e, corados, os dois as separaram.

 Luana gritou pela mãe, que em menos de meio minuto chegou na área externa da casa, e animada começou uma longa conversa cheia de fofocas e assuntos bobos com a mãe dos visitantes. As crianças se despediram, e já dentro de casa se dividiram em dois grupos diferentes: Vanessa e Raiane seguiram para o quarto da mesma, e Luana puxou Luís pela mão para a varanda.

 No quarto de Raiane, as duas meninas-adolescentes conversavam tão animadas quanto as mulheres do lado de fora da casa, enquanto falavam de amigas do colégio, estudos, garotos e muitos outros assuntos: eram amigas há alguns anos já, e se entendiam muito bem.

Na varanda, Luana havia puxado Luís para a rede, e agora ambos se balançavam como as duas crianças felizes que eram. Depois de algum tempo, quando a mãe de Luana gritou com eles lá de baixo avisando que aquilo estava ficando perigoso e eles já estavam tontos, saíram da rede e se deitaram no chão. A varanda era aberta, e o vento passava de um lado ao outro facilmente, passando pelo corredor que existia. Deitados, o vento passava por ambos e gelava o chão, trazendo, pelo menos ao garoto Luís, uma sensação boa de sono, e já estava começando a cochilar quando, num súbito, ouviu alguém falando seu nome. Se sentou.

Luís, está tudo bem? - Luana perguntou aquilo porque o menino estava com os olhos vagos, como ela descreveu para ele depois. Ele sorriu para ela, e a pegou pela mão, como se estivesse tudo bem, a tirando do chão enquanto se levantava. A puxou então para dentro da casa, falando baixinho.

-Vem cá! Vamos explorar a casa! - Ela reclamou e esperneou quando ele quis entrar no quarto do tio dela, mas ele insistiu tanto que foram. Ela tinha medo do tio, pois ele um fumante e as vezes se drogava; além disso, ela já havia acordado várias vezes ouvindo o tio gemer e resmungar durante a noite. Lá dentro, Luís abriu a estante do quarto, e puxou um livro de lá; com a cabeça, indicou a porta para Luana e saíram. O rosto dela expressava confusão, sem entender o que fora aquilo.

De volta à rede, Luís abriu o livro cuidadosamente. Ele tinha uma capa roxa, vermelho escuro, e talvez pudesse ser chamada de vermelho-sangue; na contra capa haviam desenhos estranhos, e o conteúdo do livro se resumia a diversas imagens desconexas e textos em outra língua, pelo menos foi isso que eles identificaram.

 -Mas meu tio mal sabe falar o português… - Repentinamente, quando o livro estava aberto na contra capa, Luís colocou o dedo mindinho estendido sobre o desenho no qual. agora, era possível ver uma caveira humana.

 

Capítulo 2 – A ferida de uma derrota

- Aahhhhhhhhh!!!!!

Sir Leron corria desesperado.Tinha sua espada em mãos,toda ensagüentada,e um corte profundo em sua barriga que doía muito.Parecia que uma hemorragia atingia-o naquele momento,e o inimigo não parava de seguí-lo.Ele tentou correr com mais velocidade,mas a dor era demais.Tropeçou e caiu.Ali,já não possuía mais força nenhuma para se levantar e continuar correndo.Apenas arrastou-se até entre as árvores e escorou-se em uma delas com as costas,repousando a espada ao seu lado.Colocou a mão sobre a ferida,e amarrou um pedaço de pano (que havia retirado de sua blusa) no local,para tentar estancar o sangue.Com muito custo,ergueu-se,e tentou caminhar floresta adentro.De repente,a sua frente surge o meio-gigante que tanto o perseguia.Ele assusta-se e afasta um pouco.Esquiva de um golpe e tenta acertá-lo com a espada.O grande homem apenas segura-o e aponta o machado em direção a sua cabeça e… 

Sir Leron levanta-se da cama e nota que fora um pesadelo.Mesmo assim,era tudo muito real.Estava suando frio e tinha as mãos vermelhas.Tocou as feridas,que já não doíam mais nada,e olhou pro teto. “Provavelmente é o efeito do remédio…”,pensou ele,ofegante e suando ainda.Passou a mão nos olhos,e notou que ninguém aparecera.Seu grito saiu abafado,e ninguém ouviu,provavelmente.Assim era melhor,pelo menos pensava ele.Pegou ao seu lado um vasilhame com água e tomou de uma única golada.Ergueu-se e esticou seu corpo,a muito tempo parado.Fez um ‘alongamento’ e ‘espreguiçou-se’.Em seguida,deixou a vasilha sobre o pequeno móvel que havia ali e deu um salto para testar como estava.Ainda doía um pouco,mas suas feridas já estavam bem melhor.Algo suportável,pelo menos…

Ainda de pé,caminhou pela casa e pegou uma maçã antes.Chegou a um cômodo,e viu ali seus equipamentos.Sorriu em vê-los ali e saber que estavam bem guardados.Ele voltou ao quarto em que estava e vestiu sua camisa que estava na cadeira.Por sinal,sua camisa estava muito limpa.Caminhou até a janela e deu uma olhada na bela paisagem.A sua frente havia uma pequena floresta e uma clareira,onde aquela vila havia sido construída.Havia uma enorme construção,bela e exótica,sobre uma pedra,que dava total destaque na paisagem.Chegou a porta,e abriu-a.O sol ainda brilhava intenso,e Marcus se sentia feliz de ainda poder vê-lo.Caminhou para o exterior da simples casa,e viu um grupo de pessoas conversando…

Marcus esticou-se novamente e colocou a mão sobre os olhos,olhando todo o ambiente.Caminhava,passos lentos,em direção a aquele pequeno grupo.Lá estava Josh conversando com outros prováveis moradores daquele local.Aproximou-se,com um pequeno sorriso de gratidão em face.Esperou eles terminarem de conversar,e em seguida,olhou pra Josh,ainda com aquele estranho sorriso,que não era o forte de Marcus.Ele estendeu a mão ao homem,e disse,em bom tom de voz.

- Sou verdadeiramente grato,senhor Josh.Seus cuidados me renderam uma ótima melhora. *Sir Leron balançou seu corpo para mostrar que estava um pouco melhor.*

- É verdade…mas não precisa me agradecer.Eu faria isso para qualquer um,mas acho que você não deveria ter saído ainda.É um pouco cedo,e suas feridas não devem estar plenamente cicatrizadas. *Disse Josh,com uma feição um pouco séria.*

- Tudo bem. *Sir Leron não mais sorria agora.* - Depois eu volto lá pra descansar,mas já fiquei muito tempo deitado.Prefiro fazer algo antes que eu enlouqueça ou perca a mobilidade.

- Se quer assim… *Josh olhou-o,e estendeu a ele um machado.* - Se puder ir até a floresta me trazer lenha,eu seria muito grato.

- Tudo bem.Quem sabe eu consigo recompensar seus cuidados algum dia.Já,já eu volto

Marcus então afastou-se,dando as costas e caminhando com o machado em mãos.Entrou na floresta e começou a procurar pequenos troncos para que pudesse cortá-los.De repente,um breve ‘flashback’ lhe veio a mente.A imagem daquela floresta em que estava…muito se assemelhava a aquela em que tivera o pesadelo.Levou a mão a cabeça no mesmo instante,que parecia doer um pouco,e olhou pros lados,a procura de algo,ou alguém,talvez.Suspirou fundo,e continuou caminhando.Enfim,achou alguns galhos caídos e começou a cortá-los e recolhê-los em um mesmo lugar.De repente ouviu uma zoeira e já virou pronto,com o machado em mãos.Era um pequeno animal.Ele suspirou,com um pouco de ira na face,mas abaixou o machado e continuou a cortar os galhos.Enfim,depois de acumular bastante lenha,ele juntou-as novamente e amarrou-as com um cipó.Pegou todas elas,com um pouco de dificuldade,e voltou a caminhar para a saída da floresta…

Chegou novamente à aquela clareira,e viu que o movimento ali continuava intenso,apesar de ser uma vila.Marcus caminhou lentamente até a casa em que estava hospedado,e bateu na porta antes de entrar.Josh logo abriu-lhe a porta,e com um sorriso,Sir Leron mostrou a lenha que trazia em sues ombros.Abaixou-as,um pouco bruscamente,e colocou elas no chão,dizendo.

- Aqui está,senhor. *Passou a mão na testa.* - Espero que essa quantidade seja suficiente,mas se for o caso,eu posso buscar mais. *Repousou o machado no chão,se apoiando nele.*

- Tudo bem,Marcus.Isso é mesmo o suficiente.Muito obrigado. *O homem sorriu,e pegou os galhos,colocando-os nas costas.* - E então,você vai entrar ou não?

- Não,não,muito obrigado. *Esboçou um sorriso.* - Eu quero conhecer melhor tão belo e acolhedor ambiente.

- Tudo bem. *Disse Josh.* - Talvez você encontre meu filho por aí.Até mais.

- Até logo. *Disse Marcus acenando para Josh.*

O homem saiu da frente da simples casa,e começou a caminhar no centro do vilarejo.Havia ali uma pequena praça,em que alguns comerciantes e viajantes compravam e vendiam seus objetos.Sir Leron começou a caminhar entre as poucas barracas,olhando o que ali havia.Muitas ervas e diversos tipos de remédio,e pouquíssimos equipamentos de combate.Como já esperava,aquele local era bem pacato.Mas uma coisa logo chamou sua atenção: uma pequena pedra brilhante,de grande beleza.Nada demais havia nela,apenas sua extrema beleza.Ele encarou-a e olhou para o vendedor.Em seguida,afastou-se,pois não poderia comprá-la mesmo.Saiu daquele pequeno ‘centro de comércio’ e continuou a caminhar pela região…

Enfim,ele chegou aos limites do vilarejo,e lá viu Sion.Próximo a um espantalho,ele tinha uma espada de madeira e ‘batia’ no espantalho de forma bruta e desordenada.Sir Leron sorriu e caminhou até o garoto,aplaudindo-o quando se aproximou.O moleque era mesmo bom pela idade que tinha,e talvez se tornaria um grande guerreiro.Chegou mais próximo de Sion,que havia cessado os constantes golpes,e abaixou ao seu lado.Disse em seguida.

- Você é muito bom,sabia? *O homem sorriu para Sion,que devia ter apenas uns 13 anos.O garoto nada respondera,apenas encarou-o.* - Mas só que você pode melhorar.Veja! *Sir Leron caminhou até próximo do espantalho,e indicou com o dedo 4 pontos no corpo do espantalho.* - Se você acertar aqui,com um corte diagonal,provavalmente sairá em vantagem,diminuindo a movimentação de seu inimigo. *Perna.* - Se acertar aqui… *Ambos os braços.* - …é quase que fatal,já que seu inimigo não poderá usar armas ou escudos. *Fez uma pausa.* - Mas se acertar aqui… *Indicou a barriga.* - …você deixará seu inimigo bem fraco,e sem quase defesa alguma.São os pontos mais fáceis e desprotegidos para que acerte.Vamos lá,tente.

Sir Leron afastou-se e ficou prestando atenção no garoto,que tentava acertar aqueles pontos que ele havia indicado.Ele agachou-se ao lado de Sion e ia falando pro menino o que ele deveria fazer e como fazer pra melhorar seus golpes,sempre com um sorriso no rosto.Lembrou-se do tempo de que era garoto e que seu pai ainda o treinava com grande intensidade e vontade.Ele adorava estar com seu velho,mas agora,estar com ele era cada vez mais difícil…

2. a Carta 

Pena na mão, tinta e pergaminho, Harry começou a escrever a carta. Era um grifnorio e estava na hora de ter coragem e retomar a vida que havia deixado para trás. Em uma hora a carta estava escrita. Chamou uma coruja e mandou-a para professora McGonagall.

*****************

Em sua sala, a diretora de Hogwarts recebia uma coruja muito preta que trazia um pergaminho na perna. Olhou para trás e disse:

- Você tinha razão, Alvo. Ele realmente escreveu.

- Ora Minerva, conhecemos Harry bem o suficiente para saber que ele triunfaria e que um dia voltaria a vida publica. Agora vamos, leia a carta e mate a curiosidade de todos os velhos diretores que aqui estão.Ora, Finelius, não se faça de desentendido –disse o quadro de Dumbledore para o quadro do outro ex-diretor que fazia cara de tédio- você está tão interessado quanto qualquer outro de nós.

Minerva começou a ler a carta que dizia o seguinte:

Cara professora Minerva McGonagall.

Venho por meio desta carta contar-lhe tudo o que se passou no ultimo ano, os motivos de minhas escolhas, o caminho que trilhei e por fim pedir-lhe um grande favor.

Para começar as explicações gostaria de voltar ao ano passado. No momento do enterro do professor Dumbledore. Naquele momento achei que estivesse perdendo a ultima pessoa que havia na minha vida. Senti-me enterrado junto com o meu ex-diretor a quem eu tinha como amigo e conselheiro. E com quem sempre pude contar. Assim que desembarquei na estação King’s Cross encontrei Ninfadora Tonks que também estava desolada com o que havia acontecido. Combinamos ali mesmo que iríamos atrás de Voldemort. Eu para cumprir a professia e ela para vingar duas mortes (que na cabeça dela seriam sua culpa): Sirius e Dumbledore.

Partimos para a Austrália, como um casal recém casado. Tínhamos noticias de Comensais agindo por lá. Apenas encontramos Rabicho, meio enlouquecido, perdido no deserto. Devo dizer que não pretendíamos mata-lo, mas aurores australianos não sabiam quem éramos, e pensando que estávamos sendo atacados e eles mesmo acabaram com Rabicho.

De lá partimos para Portugal. A cidade de Lisboa vinha sofrendo com desaparecimento de trouxas. Lá encontramos um grande grupo de Comensais. Tonks misturou-se a eles dizendo ser uma bruxa australiana. Descobrimos pistas que nos levavam a França. Devo dizer-lhe que o Ministério da Magia português ficou muito feliz por capturar dez comensais ingleses.

Na França, pela primeira vez comecei a sentir o sabor da vingança. Seguindo pistas chegamos a pequena cidade de Vichy. E descobrimos que uma velha senhora estava agindo de maneira estranha. Fomos verificar e vimos que ela estava agindo sob domínio da maldição império. Deixamos nossos nomes com a mulher com o intuito de sermos descobertos. No caminho de volta a nosso esconderijo encontramos Malfoy. Ele estava sozinho, mas mesmo assim foi difícil vence-lo. Ele terminou morto nas ruas da França e enterrado como um trouxa mendigo.

De lá partimos para o México, aonde estava Draco Malfoy. Descobrimos isso por meio de cartas que ele mandava para o pai pelo correio trouxa. Ele estava tentando formar uma legião de Comensais Mexicanos. Foi rapidamente capturado por Tonks que o conquistou e o trouxe direto para Azkaban. Lembro-me que nesta época começaram os boatos sobre um grupo de bruxos que estava caçando os Comensais. Eu e Tonks contávamos com a vantagem de ninguém nunca citar nossos nomes. Lembro-me também do assombro que havia nos jornais. Já que entregamos Draco como se Dumbledore o tivesse feito.

Voltamos a viajar e agora fomos para a África do Sul. Haviam alguns Comensais por lá, eram liderados por Goyle. Estes foram os mais fáceis de capturar. Entregamos eles ao Ministério da Magia Sul-Africano sem dizer quem éramos.

A esta altura Voldemort descobriu o obvio. Que estava sendo caçado. Assim acabamos perdendo alguns meses seguindo pistas falsas que o Lord plantava. Fomos para o Brasil, Argentina, Canadá, Bolívia, Uruguai, Rússia, Polônia e Letônia. E nada de útil era encontrado.

Porem, quando fomos para o Egito conhecemos um bruxo indiano, que logo me reconheceu por fotos mandadas pela filha, do dia do Baile de Inverno do Torneio Tribruxo. O senhor Patil foi extremamente útil a nos dar uma pista a seguir na fronteira da Índia com o Paquistão.

E lá fomos nós junto ao senhor Patil, que conhecia a região. Depois de quase dez meses de viagem e tantos paises visitados encontramos a pista final de Voldemort. O Bruxo guardião das montanhas da região nos disse que o Lord das Trevas estava nas montanhas da China.

A luta contra Voldemort foi tão sangrenta quanto os jornais noticiaram. Tudo que se disse era plena verdade. Por pouco não perdemos Tonks naquela luta. Ela seguriu o Lord das Trevas enquanto eu ia destruindo a horcrux que ainda haviam sobrado: Nagini. Depois de destruí-la entrei na luta contra Voldemort extamente no momento em que ele lançava um “avada kedavra” em Tonks. Neste exato momento peguei o espelho que Sirius havia me dado e joguei-o na frente do raio verde que vinha na direção de Tonks. De alguma forma o espelho refletiu o encanto e Volemort caiu morto.

Pedi a Tonks que levasse o corpo dele para Londres. E fui atrás dos dois últimos e piores Comensais. Desde o inicio da viagem sabia que Bellatrix e Snape estava exilados na Suíça. E Fui para lá. Não me orgulho do que fiz. Mas havia muita coisa envolvida. Eles mataram as duas pessoas que foram minha a família que nunca tive. E me afastaram de todos aqueles que eu tanto amava. Só pensava nisto quando destruí a casa onde eles dormiam.

Agora, professora Mcgonagall eu olho para trás e vejo que minha vida parou. Me refugiei em minha própria casa e sumi para o mundo. Um ano se passou e vejo que tenho que retomar minha vida. E quero concretizar aquilo que um dia chamei de sonhos. Por isso peço que me aceite de volta em Hogwarts e me deixe tentar ser auror e poder evitar que outros como eu, percam alguém a quem tanto amaram pelas mãos do mal.

Obrigada desde já,

Harry Potter.”

Ao fim da carta o quadro de Dumbledore tinha lágrimas nos olhos. E nem precisou falar. A própria Mcgonagall disse:

- Eu sei, Alvo. E concordo que nunca antes um aluno pode voltar depois de abandonar Hogwarts, mas talvés seja o caso de pensarmos em uma exceção.

-Ora, Minerva –respondeu o quadro de Dumbledore- acho que todo o bruxo que livrou o mundo de Voldemort merece ser visto como uma exceção.

- Concordo, Alvo, deixaremos Harry voltar a Hogwarts. Mas outras coisas me preocupam…

-Acalme-se, Minerva. Veremos se Harry consegue lidar com elas.

Ainda ouvindo o ex-diretor, Minerva McGonagall escrevia em um pergaminho que Harry poderia voltar.

********************************

Longe dali, em Londres, um rapaz de olhos muitos verdes mirava o horizonte. Seus sonhos e esperanças podiam estar sendo carregados por aquela coruja que se aproximava ao longe.